O balão levou Milena por cima dos telhados de Rio Claro.
Ela via as telhas laranja lá embaixo, as árvores balançando, um gato branquinho que dormia numa janela e abriu um olho pra olhar pra ela com cara de muito poucos amigos.
O ar cheirava a sereno e a pipoca e a flores de jasmim que abriam à noite.
Milena ainda segurava a fita verde com as duas mãos, mas o coração já não batia mais de susto. Batia de outra coisa.
Ela não sabia bem o nome daquilo. Era quentinho. Era brilhante. Era parecido com o sentimento de resolver uma conta difícil, ou de encontrar o sapato que sumiu embaixo da cama. Algo como… coragem.
O balão fez uma curva suave e começou a descer.
Devagar. Plim plim plim.
Eles pousaram bem no centro da festa, exatamente no meio da roda de quadrilha, onde a música estava no ponto mais animado.
Os pés de Milena tocaram o chão de terra batida com um leve croc.
Todo mundo parou por um segundo e olhou.
Milena sentiu aquele peso antigo chegar de novo. O parafuso enferrujado, o travar, o sumir.
Mas aí o balão joaninha deu um empurrãozinho nela. Bem de leve, com o lado arredondado e macio, bem no ombro. Como um amigo que diz: vai, eu estou aqui.
E a música voltou. Bumm bumm bumm.
E Milena dançou.
Não foi perfeito. Ela pisou no próprio pé uma vez. Depois quase esbarrou no dançarino do chapéu de palha. Mas a prima Lúcia apareceu do nada com a saia rodando e pegou na mão dela, e os dois riram, e então o pai de Milena entrou na roda também, e a mãe, e o balão joaninha boiava ali do lado, levinho, com o sorrisinho pintado que parecia cada vez mais satisfeito.
Milena dançou a música inteira.
Depois a seguinte.
Depois mais uma.
Quando a festa começou a fechar, com as bandeirinhas sendo dobradas e o cheiro de fumaça das velas apagadas misturado com o último bolo de fubá, Milena foi até o balão.
Ele estava ali, boiando do jeito dele, a fita verde pendurada.
— Obrigada, ela disse, dessa vez sem vergonha nenhuma.
O balão piscou de novo. O mesmo piscadão lento e amigável.
Depois ele subiu.
Devagar, devagar, cada vez mais alto, até virar um ponto vermelho entre as estrelas, e depois nem isso mais.
Milena ficou olhando pro céu por um tempinho.
A mãe chegou por trás e colocou um xale nos ombros dela.
— Tá na hora de ir pra casa, minha flor. Você dançou muito hoje.
— Dancei, disse Milena, com um sorriso que chegava dos dois lados do rosto.
No carro de volta, com a cabeça encostada no vidro morno e os olhos pesando de sono, Milena pensou no balão fofinho.
Ele tinha ido embora.
Mas o que ele deixou, aquele quentinho no peito, aquela vontade que empurra a gente pro meio da roda mesmo com medo, aquilo ficou.
Os olhos de Milena fecharam devagarinho.
Lá fora, no céu de Rio Claro cheio de estrelas e cheiro de festa, uma coisinha vermelha piscou uma última vez antes de sumir de vez entre as nuvens.
E Milena dormiu sorrindo, com as tranças de fita amarela ainda no cabelo e os sapatinhos de couro cheios de poeira de alegria.

