Ilustração da Parte 2 da história Milena e o Balão Joaninha

Milena e o Balão Joaninha — Parte 2

O balão levou Milena por cima dos telhados de Rio Claro.

Ela via as telhas laranja lá embaixo, as árvores balançando, um gato branquinho que dormia numa janela e abriu um olho pra olhar pra ela com cara de muito poucos amigos.

O ar cheirava a sereno e a pipoca e a flores de jasmim que abriam à noite.

Milena ainda segurava a fita verde com as duas mãos, mas o coração já não batia mais de susto. Batia de outra coisa.

Ela não sabia bem o nome daquilo. Era quentinho. Era brilhante. Era parecido com o sentimento de resolver uma conta difícil, ou de encontrar o sapato que sumiu embaixo da cama. Algo como… coragem.

O balão fez uma curva suave e começou a descer.

Devagar. Plim plim plim.

Eles pousaram bem no centro da festa, exatamente no meio da roda de quadrilha, onde a música estava no ponto mais animado.

Os pés de Milena tocaram o chão de terra batida com um leve croc.

Todo mundo parou por um segundo e olhou.

Milena sentiu aquele peso antigo chegar de novo. O parafuso enferrujado, o travar, o sumir.

Mas aí o balão joaninha deu um empurrãozinho nela. Bem de leve, com o lado arredondado e macio, bem no ombro. Como um amigo que diz: vai, eu estou aqui.

E a música voltou. Bumm bumm bumm.

E Milena dançou.

Não foi perfeito. Ela pisou no próprio pé uma vez. Depois quase esbarrou no dançarino do chapéu de palha. Mas a prima Lúcia apareceu do nada com a saia rodando e pegou na mão dela, e os dois riram, e então o pai de Milena entrou na roda também, e a mãe, e o balão joaninha boiava ali do lado, levinho, com o sorrisinho pintado que parecia cada vez mais satisfeito.

Milena dançou a música inteira.

Depois a seguinte.

Depois mais uma.

Quando a festa começou a fechar, com as bandeirinhas sendo dobradas e o cheiro de fumaça das velas apagadas misturado com o último bolo de fubá, Milena foi até o balão.

Ele estava ali, boiando do jeito dele, a fita verde pendurada.

— Obrigada, ela disse, dessa vez sem vergonha nenhuma.

O balão piscou de novo. O mesmo piscadão lento e amigável.

Depois ele subiu.

Devagar, devagar, cada vez mais alto, até virar um ponto vermelho entre as estrelas, e depois nem isso mais.

Milena ficou olhando pro céu por um tempinho.

A mãe chegou por trás e colocou um xale nos ombros dela.

— Tá na hora de ir pra casa, minha flor. Você dançou muito hoje.

— Dancei, disse Milena, com um sorriso que chegava dos dois lados do rosto.

No carro de volta, com a cabeça encostada no vidro morno e os olhos pesando de sono, Milena pensou no balão fofinho.

Ele tinha ido embora.

Mas o que ele deixou, aquele quentinho no peito, aquela vontade que empurra a gente pro meio da roda mesmo com medo, aquilo ficou.

Os olhos de Milena fecharam devagarinho.

Lá fora, no céu de Rio Claro cheio de estrelas e cheiro de festa, uma coisinha vermelha piscou uma última vez antes de sumir de vez entre as nuvens.

E Milena dormiu sorrindo, com as tranças de fita amarela ainda no cabelo e os sapatinhos de couro cheios de poeira de alegria.

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