Quando Drica enfiou o pé na água do Rio Encantado, ela sentiu algo diferente de frio.
Sentiu cócegas.
A água subia ao redor do seu tornozelo como uma brincadeira, fazendo bolhinhas que estalavam com um barulho de tic tic tic e subiam pelo ar, brilhando como mini sabões de luz.
— Nossa! — ela riu, dando mais um passo.
A água chegava só na canela. Era rasa, mas parecia estar sempre em movimento, sempre para cima, como se o rio inteiro estivesse com pressa de virar nuvem.
Drica atravessou devagar, com os braços abertos para equilibrar, sorrindo o tempo todo. Cada passo soltava mais bolhinhas. Cada bolhinha subia cantando tin tin.
Quando chegou do outro lado, os pés pingando e o coração batendo rápido de alegria, ela ficou de frente para a bandeja.
O cheiro chegou primeiro.
Um cheiro quente, adocicado, tostado, que parecia abraço de avó e tarde de fazenda ao mesmo tempo. Rapadura derretida, amendoim crocante, um toque de baunilha que ela nem sabia nomear mas que o nariz reconheceu na hora.
Drica olhou para aqueles pedaços dourados por um longo segundo.
— Pé de moleque — ela murmurou.
E então deu uma risada de si mesma. Uma risada gostosa, de barriga.
— Eu evitei você a vida toda por causa de um nome. Que bobage minha!
Ela pegou um pedacinho pequeno. Só para experimentar.
Croc.
O amendoim estourou na boca. A rapadura derreteu na língua. Era crocante e macio ao mesmo tempo, doce com um fundo de sal, e tinha um gosto que ela não conseguia comparar com nada porque era completamente novo e completamente perfeito.
— Hmmmmm! — Drica fechou os olhos.
Quando os abriu, o Tio Renato estava do outro lado do riacho, rindo.
— E aí? — ele gritou.
— Tio! Por que você nunca me obrigou a comer isso antes?!
— Porque algumas descobertas precisam acontecer na hora certa — ele respondeu, com aquele sorriso de segredo gostoso.
Drica olhou para o rio que subia, para as bolhinhas de luz, para o céu azul de julho, e então olhou para o pé de moleque na mão.
Ela tinha atravessado um rio impossível, sozinha, com o coração curioso e os pés corajosos, para descobrir o sabor mais gostoso da sua vida.
E o nome? Bom, o nome ela já tinha decidido que ia ignorar completamente de agora em diante.
Na volta pela trilha, com os pés ainda úmidos e a boca ainda com gosto de rapadura, Drica segurou a mão do Tio Renato e olhou uma última vez para trás.
O rio brilhava no sol da tarde, subindo, subindo, subindo.
Tin tin tin.
Como um aceno.
Drica acenou de volta, sorriu de orelha a orelha, e voltou para casa com a barriga cheia, o coração mais cheio ainda, e a certeza de que o mundo estava repleto de coisas maravilhosas esperando só por uma coisa: alguém corajoso o suficiente para dar o primeiro passo.

