Ilustração da Parte 2 da história Gael e o Dragão Colecionador de Chuvas

Gael e o Dragão Colecionador de Chuvas — Parte 2

Gael jogou a mochila no chão, sentou em cima de uma pedra e ficou olhando para a caverna cheia de guarda-chuvas por um bom tempo.

Chuá ficou parado, sem saber bem o que fazer com aquele menino que não corria, não gritava e não tentava enfiar uma espada nele.

— Você vai me denunciar para o rei? — perguntou o dragão, a voz levemente rouca.

— Depende — disse Gael. — Você quer ajuda para montar esse arco-íris?

Chuá piscou três vezes seguidas.

— Você saberia como fazer?

— Sei a ordem das cores. Todo mundo aprende. Vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil, violeta. — Gael contou nos dedos. — É sempre assim, num arco-íris de verdade.

O dragão olhou para ele com uma expressão que misturava espanto e alívio, como alguém que carregou um peso enorme por tempo demais e finalmente encontrou um lugar para pousar.

— Trezentas e quarenta e duas tentativas — murmurou Chuá — e eu nunca soube a ordem.

— É simples assim?

— Para você é simples. Para mim — o dragão balançou a cabeça — é o coisa mais difícil do mundo.

Gael levantou da pedra e arregaçou as mangas.

— Então vamos começar.

Eles trabalharam juntos pelo resto da tarde.

Gael separava os guarda-chuvas por cor, criando sete fileiras no chão da caverna: uma vermelha, uma laranja, uma amarela, uma verde, uma azul, uma de tons mais escuros que serviam de anil e uma última de roxos e violetas de todo tipo. Havia tantos guarda-chuvas que cada fileira ficou com dezenas deles.

Chuá era surpreendentemente cuidadoso com as mãos — ou melhor, com as garras. Ele manuseava os guarda-chuvas com uma delicadeza que Gael não esperava de um dragão, abrindo cada um, verificando se estavam intactos, dobrando os quebrados de lado com uma expressão triste.

— Esse aqui tinha franjas douradas — disse Chuá, segurando um guarda-chuva azul cujas franjas tinham se partido. — Era bonito demais.

— Você lembra de cada um?

— De todos.

Gael olhou para ele de um jeito diferente agora.

Quando o sol começou a desaparecer atrás das nuvens cinzentas e o ar ficou ainda mais frio, eles subiram ao pico mais alto da montanha. Chuá carregava os guarda-chuvas em feixes enormes, com cuidado de não amassar nenhum. Gael subia atrás, guiando com sua corda os fardos maiores.

No alto do pico havia uma plataforma natural de pedra, larga e plana como uma mesa. Era o ponto mais alto de Valdra. Lá de cima, nos dias sem nuvens, diziam que dava para ver até o mar.

Eles montaram o arco-íris juntos.

Gael dava as instruções, Chuá executava com suas garras precisas. Amarraram os guarda-chuvas uns aos outros com os próprios fios das franjas, criando arcos coloridos que se curvavam sobre a pedra. Vermelho por fora, laranja logo atrás, amarelo, verde, azul, anil, violeta por dentro. Uma curva enorme, aberta para o céu, feita de tecido e haste e cor.

Quando o último guarda-chuva violeta foi fixado, Chuá e Gael deram um passo atrás.

O arco estava perfeito.

As cores não brilhavam como num arco-íris de sol e chuva, mas tinham algo melhor: tinham história. Tinham guarda-chuvas com bolinhas, com estrelas, com franjas, com listras. Tinham a memória de cada chuva que cada um deles tinha enfrentado.

Chuá ficou em silêncio por um longo momento.

— É mais bonito do que eu imaginei — disse ele, com a voz engasgada de um jeito que dragões provavelmente não admitem.

— É — concordou Gael.

Lá embaixo, no reino de Valdra, alguém gritou.

Depois outro alguém. E outro. E mais.

As pessoas saíam das casas, dos estábulos, das lojas e das tavernas, apontando para o alto do Pico de Valdra com os olhos arregalados. Ali estava aquele arco enorme de cores, curvado contra o céu cinzento como uma promessa.

Gael olhou para Chuá.

— Agora todo mundo vai querer saber quem fez isso.

— Vão dizer que foi magia — murmurou o dragão.

— E quem devolver os guarda-chuvas?

Chuá baixou a cabeça, um tanto envergonhado.

— Eu poderia… devolver. Um por um. Se você me ajudasse a lembrar de quem era cada um.

— Você lembra de todos, você mesmo disse.

— Lembro. Mas ir sozinho é assustador.

Gael franziu o nariz, pensativo, e depois estendeu a mão.

— Tudo bem. Eu vou junto.

E foi assim que, nos dias seguintes, o povo de Valdra se surpreendeu de manhã cedo ao encontrar seus guarda-chuvas de volta nas varandas, nos ganchos das portas, nos bancos das praças — sem explicação, sem barulho, sem rastro além de uma pequeníssima marca de garra no cabo de alguns deles.

O rei Aldor mandou chamar Gael, que voltou ao salão com a mesma postura de antes e disse apenas que o mistério estava resolvido e que o povo poderia dormir em paz.

— E o responsável? — perguntou o rei.

— Aprendeu a pedir — disse Gael.

Nessa noite, Gael dormiu ao relento perto do pico, enrolado no cobertor da mochila. Lá em cima, o arco de guarda-chuvas balançava suavemente no vento frio da montanha.

Chuá deitou do lado, enrolou a cauda ao redor de si mesmo e fechou os olhos amarelos devagar.

— Obrigado — disse o dragão, já quase dormindo.

— De nada — disse Gael.

Lá embaixo, o reino inteiro dormia também, com aquelas cores coloridas brilhando no alto como uma noite de festa parada no tempo.

E o céu, que havia dias não mostrava nenhuma cor, pareceu suspirar de alívio.

Zzzzz.

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