No reino de Valdra, onde as montanhas eram tão altas que suas pontas desapareciam entre as nuvens, havia um problema muito estranho.
Os guarda-chuvas sumiam.
Não um, não dois. Todos. Qualquer guarda-chuva deixado do lado de fora de uma porta, esquecido em cima de um banco de praça ou pendurado na varanda de uma loja desaparecia como fumaça ao vento. Os ferreiros faziam novos, os tecedores costuravam novas capas de seda e linho, e na manhã seguinte — sumidos. Outra vez.
O rei Aldor convocou seus cavaleiros mais corajosos. Nenhum voltou com resposta. Só um voltou com o chapéu amassado e a armadura torta, murmurando algo sobre vento quente e cheiro de enxofre.
Foi então que Gael se apresentou.
Ele tinha onze anos, cabelos castanhos sempre bagunçados e um par de botas que já tinha visto dias melhores. Não era cavaleiro. Não tinha armadura. Tinha uma mochila de couro, um cantil de água, uma corda trançada pela própria avó e uma curiosidade que não cabia dentro do peito.
— Eu vou descobrir o que está acontecendo — disse ele ao rei, com a voz firme de quem já tinha decidido antes mesmo de entrar no salão.
O rei franziu a testa.
— Você é uma criança.
— Sou. Mas os cavaleiros voltaram sem resposta e eu voltarei com ela.
O rei suspirou, acenou com a mão e deixou Gael partir.
A trilha que subia até o Pico de Valdra era estreita, coberta de pedras soltas e raízes que pareciam querer prender os pés de quem passasse. Gael subiu sem pressa, prestando atenção em tudo: no som do vento entre as pedras, no cheiro de musgo úmido, no modo como os corvos evitavam voar para o lado da montanha mais alta.
Depois de horas de caminhada, quando o ar ficou mais frio e as árvores mais raras, Gael parou.
Viu algo brilhando no alto.
Não era ouro. Não era gelo. Era… vermelho. Azul. Amarelo. Verde. Cores dançando no canto de uma saliência rochosa, como se alguém tivesse espalhado retalhos de festa por cima das pedras cinzentas.
Gael subiu mais devagar agora, usando a corda para escalar o trecho mais íngreme. Quando finalmente chegou à borda da saliência e espiou por cima — ele ficou com a boca aberta.
Ali, numa caverna larga como uma praça, havia uma montanha de guarda-chuvas.
Vermelhos, azuis, listrados, com bolinhas, com franjas douradas, pequenos, enormes, dobráveis, de cabo curvo, de cabo reto. Havia guarda-chuvas empilhados até o teto, guarda-chuvas abertos formando pilares coloridos, guarda-chuvas amarrados uns aos outros com fios de palha como se fossem bandeirinhas de festa.
E no meio de tudo aquilo, sentado com uma expressão de absoluta concentração, estava um dragão.
Ele era menor do que Gael esperava. Tinha escamas cor de céu antes da tempestade, um par de chifres ligeiramente tortos e uma barriga arredondada que subia e descia enquanto ele resmungava para si mesmo. Suas garras seguravam com cuidado dois guarda-chuvas — um roxo com estrelas e um laranja com listras — e ele os posicionava, trocava de lugar, inclinava a cabeça de um lado, trocava de lugar de novo.
— Não… não fica certo assim — murmurou o dragão. — O roxo tinha que ficar do lado do azul. Mas o laranja destrói tudo se ficar no meio. Hmm.
Gael não conseguiu se conter.
— O que exatamente você está tentando fazer?
O dragão pulou tanto que derrubou uma pilha inteira de guarda-chuvas. Eles caíram com um barulho enorme — clap clap clap clap — e rolaram para todos os lados. O dragão virou numa velocidade surpreendente para um ser daquele tamanho e encarou Gael com olhos amarelos e arregalados.
— Um humano! — exclamou ele.
— Um dragão — respondeu Gael, com a mesma entonação.
Eles se encararam por um longo momento.
— Você não deveria estar aqui — disse o dragão, tentando parecer ameaçador. Mas havia um guarda-chuva verde com bolinhas brancas preso entre seus chifres tortos, o que tornava a tarefa bastante difícil.
— Eu sei — disse Gael. — Mas eu precisava saber quem estava roubando todos os guarda-chuvas do reino. E agora eu sei que é você.
O dragão ergueu o pescoço, indignado.
— Eu não roubo. Eu… coleciono.
— Sem pedir.
— Detalhes.
Gael olhou em volta, para a caverna inteira transbordando de guarda-chuvas coloridos, e depois olhou de volta para o dragão.
— Por quê?
A pergunta saiu simples e direta, sem acusação, sem raiva. Só curiosidade.
O dragão piscou. Parecia não estar acostumado com esse tipo de pergunta.
Ele fechou a boca, abriu de novo, franziu as sobrancelhas escamosas e então, muito devagar, apontou com uma garra para a entrada da caverna.
Lá fora, o céu cinzento de Valdra se estendia até onde a vista alcançava. Não havia sol. Não havia azul. Só um manto pesado e monótono de nuvens que cobria o reino havia meses.
— Meu nome é Chuá — disse o dragão, com a voz mais baixa agora. — E eu quero fazer um arco-íris.
Gael ficou em silêncio.
— Um arco-íris — repetiu ele.
— Sim. Um arco-íris de verdade. Para o reino. Para todo mundo ver. Mas eu não consigo cuspir fogo suficiente para aquecer as nuvens e criar um. Então pensei… se eu tivesse cores suficientes, cores reais, penduradas aqui no alto da montanha, bem na ponta do pico onde todo mundo pudesse ver lá embaixo… seria quase a mesma coisa.
O dragão olhou para sua coleção com um misto de esperança e frustração.
— Mas não fica certo. Eu coloco as cores numa ordem e parece errado. Coloco de outro jeito e também fica errado. Já tentei trezentas e quarenta e duas vezes.
Gael olhou para a montanha de guarda-chuvas. Olhou para o dragão atrapalhado com o guarda-chuva preso no chifre. Olhou para o céu cinzento lá fora.
E começou a pensar.
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