Ouça bem, minha gente,
vou contar um caso real,
de uma menina chamada Bel
que era pura e especial.
Bel tinha oito anos feitos,
uma trança cor de mel,
e uma lista no bolso
cheia de por quês, papel.
Morava perto de uma praça
que um dia foi bonita,
com coreto, banco e flores,
uma coisa bem caprichada e bendita.
Mas a praça foi esquecida.
As flores murcharam, pobrezinhas.
O coreto ficou torto,
as madeiras, tão branquinhas.
Bel olhava toda tarde
pro lugar que já foi lindo,
e sentia um aperto no peito,
um choro que ia vindo.
— Por que as pessoas esquecem
as coisas tão bonitas?
— perguntava ela pra avó.
A avó dava respostas mínimas.
Um sábado bem cedo,
Bel saiu com seu caderno.
O céu estava alaranjado,
cheirava a café moderno.
E no fim da rua nova,
onde antes havia um mato,
Bel encontrou uma feira
que não estava no mapa.
Tin tin! Uma sineta tocou.
Plac plac! As bandeirolas bateram.
E as barracas coloridas
na brisa da manhã tremeram.
Na primeira barraca, havia
um homem de chapéu de palha,
velho, olho esperto e brilhante,
cheio de ruga na tralha.
A placa dizia assim,
em letras tortas e graciosas:
VENDEDOR DE ENIGMAS FINOS
PERGUNTAS RARAS E VALIOSAS.
— O que é isso? — disse Bel,
os olhos grandes de surpresa.
— Aqui a gente vende perguntas,
não precisa ter certeza.
O velho chamava-se Zósimo,
voz grossa de cantador,
que viajava feiras afora
vendendo dúvida e amor.
— Mas pra que serve uma pergunta
se ela não tem resposta, seu moço?
— Todo milagre começa
num por quê corajoso.
Bel entrou devagar
naquela feira estranha.
Cada barraca vendia
uma dúvida tamanha.
Na segunda, havia perguntas
de pote de barro pintado:
Por que o vento vai embora
se nunca foi convidado?
Na terceira, em caixinhas
de madeira cheirosa:
Por que a gente chora de alegria?
Que coisa misteriosa.
Na quarta, em sacos de pano
com bordado colorido:
Por que o silêncio tem som
quando o coração está partido?
Bel andava encantada,
ano mão o seu caderno,
anotando cada pergunta
como um tesouro eterno.
Foi quando Zósimo chegou
caminhando devagarzinho:
— Menina, você procura
uma pergunta especial, meu benzinho.
— Como sabe? — ela perguntou,
com a voz meio tremida.
— Seus olhos têm o brilho
de quem quer mudar uma vida.
Bel contou da praça triste,
dos bancos abandonados,
das flores que foram embora,
dos sonhos mal cuidados.
Zósimo coçou a barba,
sorriu com os olhos primeiro:
— Então você precisa
da pergunta do meu canteiro.
Ele a levou até o fundo
da feira colorida,
onge havia uma barraca
de luz quase adormecida.
Numa caixa de veludo
havia três perguntas guardadas,
escrita em papéis dourados,
dobradinhas, caprichadas.
— Escolha uma só, menina,
mas pense bem antes de abrir.
A pergunta certa tem poder
de fazer o mundo sorrir.
Bel pegou os três papéis
com o maior dos cuidados.
Abriu o primeiro devagar,
com os dedinhos delicados.
Ele dizia:
Por que o belo precisa de nós?
O segundo:
O que faz uma praça ser voz?
E o terceiro, bem dobrado,
ainda fechado, esperando…
Bel sentiu um calor no peito,
o coração acelerado.
Ela ia abrir o terceiro
quando ouviu um barulho estranho.
A feira toda parou.
Zósimo deu um passo tamanho.
— Antes de abrir esse papel,
você precisa entender:
essa pergunta tem um preço,
e o preço é o seu querer.
— Que preço é esse? — Bel disse,
a voz firme, o olhar aceso.
Zósimo apenas sorriu
como quem carrega um segredo.
E então a sineta tocou,
tin tin, de novo no ar.
A feira começou a sumir,
como fumaça ao se apagar.
Bel apertou o papel fechado
contra o peito com cuidado.
O terceiro enigma esperava.
O destino estava traçado.
Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…
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