O sino soou uma vez e a sombra estreitou, como se o eclipse estivesse respirando fundo.
Estela sentiu o Cavalo-Sombra se mover levemente sob ela, inquieto, as faíscas nas crinas brilhando mais rápido.
Mas ela não se moveu. Ficou olhando para o Guardião do Escuro, para os dois círculos brancos onde deveriam estar os olhos, e pensou.
Ela havia chegado até ali pronta para argumentar, para pedir, para exigir que ele devolvesse a luz aos sonhos. Mas agora, olhando para ele de perto, Estela percebeu algo que não havia esperado.
O Guardião parecia cansado.
Não era o tipo de cansaço de quem trabalhou muito. Era o tipo de cansaço de quem ficou muito tempo sozinho.
— Você nunca sonha — disse Estela. Não foi uma pergunta.
O Guardião ficou em silêncio por um momento longo. A sombra ao redor pulsou.
— Guardiões do Escuro não sonham — ele disse, finalmente. — Somos feitos de ausência. De silêncio. De o espaço entre uma coisa e outra.
— E você nunca quis saber como é? — ela perguntou.
Outro silêncio. Mais comprido.
— Por que você acha que tomei os sonhos? — disse ele, com a voz de páginas antigas, mas desta vez mais suave. — Não foi por maldade. Foi porque queria entender. Queria guardar os sonhos perto de mim e descobrir o que havia dentro deles.
Estela olhou ao redor. Os pedaços de sonho interrompido continuavam flutuando: o barco sem mar, a escada sem destino, a porta sem parede.
Ela entendeu.
— Mas sonhos guardados não funcionam — ela disse. — Sonho precisa de criança para existir. É como tentar guardar o vento numa caixa fechada. O vento some. Fica só o ar parado.
O Guardião abaixou a cabeça levemente. As formas ao redor pareceram murchar um pouco, como flores que percebem que o sol foi embora.
— Eu sei — ele disse, e pela primeira vez a voz tinha algo parecido com tristeza. — Mas eu não sei como sonhar de outro jeito.
Estela ficou quieta por um segundo. O sino da madrugada estava prestes a tocar de novo. Ela sabia que o tempo estava acabando.
E então uma ideia chegou, do tipo que aparece de repente, como estrela cadente, rápida e certa.
— Você não precisa guardar os sonhos — ela disse. — Você pode fazer parte deles.
O Guardião ergueu a cabeça.
— Toda vez que uma criança sonha com noite, com escuridão, com aquele silêncio bonito antes de dormir, isso é você — disse Estela. — A noite não é inimiga dos sonhos. É onde os sonhos moram. Sem você, sem a escuridão, não há onde os sonhos acontecerem.
As formas flutuantes ao redor pararam de murchar.
O barco sem mar oscilou levemente, como se uma onda invisível tivesse passado por baixo dele.
— Você faz parte de cada sonho — Estela continuou, a voz mais firme agora. — Só que não como prisão. Como lar.
O Guardião do Escuro ficou muito quieto.
E então, devagar, algo aconteceu nos círculos brancos onde deveriam estar seus olhos.
Um brilho começou a surgir. Não branco. Não como lua vazia.
Dourado. Quente. Como a linha fina que dividia o céu ao meio lá fora.
Ele levantou as mãos, e as formas flutuantes ao redor dele, os pedaços de sonho interrompido, começaram a brilhar suavemente. O barco encontrou um mar de índigo escuro. A escada ganhou uma janela no topo, cheia de luz. A porta encontrou uma parede de estrelas.
— Vá — disse o Guardião, com voz que agora soava como vento através de galhos altos. — Devolvo o que guardei.
E com um movimento lento das mãos, ele abriu o eclipse.
Não de repente, não com estrondo. Devagar, como quem abre uma cortina muito pesada com muito cuidado.
A luz voltou em ondas.
Não era luz de sol. Era a luz dos sonhos, dourada e azul e cor de lavanda, do tipo que não tem nome exato porque só existe quando os olhos estão fechados.
Estela viu do alto, montada no Cavalo-Sombra, as estrelas reacenderem uma por uma. Primeiro as mais próximas, depois as mais distantes, um tapete de luz se espalhando pelo céu como fogo andando pelo capim seco.
O Cavalo-Sombra bufou, satisfeito. As faíscas nas crinas explodiram em pequenas chuvas de prata.
— Você conseguiu — ele disse.
— A gente conseguiu — ela corrigiu, e afagou o pescoço quente dele.
Eles partiram de volta, atravessando a linha dourada novamente, de volta para o lado do céu cheio de estrelas, que piscavam agora com alegria, não com urgência.
Lá embaixo, nas casas com janelas apagadas, nas camas quentinhas, as crianças começaram a sonhar de novo.
Alguém sonhou com um castelo de areia que não desmoronava. Outro sonhou com uma floresta onde as árvores cantavam. Uma menina sonhou que sabia voar sem asas, só espalhando os braços no vento certo.
Estela sentiu tudo isso como um formigamento nas mãos, suave e quente.
O Cavalo-Sombra a trouxe de volta ao jardim silencioso, entre as roseiras. Ela desceu devagar, pés voltando ao chão de grama úmida.
— Você vai voltar? — ela perguntou.
— Toda vez que precisar — ele disse. — E mesmo quando não precisar. Estarei na sombra da roseira. No escuro debaixo da cama. No silêncio antes de dormir.
Ela sorriu.
— Boa noite, Cavalo-Sombra.
— Bons sonhos, Estela.
Ele desapareceu devagar, como névoa que o vento leva, até a última faísca prateada sumir entre as folhas.
Estela voltou para dentro, subiu a escada devagar, toc, toc, toc, atravessou o corredor e se deitou na cama ainda morna.
Pela janela aberta, o céu estava cheio de estrelas.
Todas acesas.
Todas esperando.
E enquanto os olhos de Estela fechavam, ela teve certeza de uma coisa: em algum lugar no céu, bem na linha dourada entre a luz e a sombra, o Guardião do Escuro estava aprendendo a sonhar.
E isso era o começo de algo muito bonito.
