No fundo do oceano, onde a luz do sol chegava em fios dourados e finos como cabelos de anjo, havia uma escola que nenhum mapa do mundo conseguia mostrar.
Ela não tinha paredes de tijolos nem telhado de telhas. Tinha paredes feitas de coral cor-de-rosa e telhado de conchas empilhadas com cuidado, cada uma brilhando de um jeito diferente. E no portão, em vez de campainha, havia um búzio torcido que soava assim quando o vento passava: plim.
Era a Escola das Sereias de Algodão-Doce.
Sol tinha nove anos e cabelos cheios de ondas, o que fazia a avó dizer sempre que ela tinha nascido com o mar dentro da cabeça. Toda tarde, depois da escola de verdade, a de cadernos e borrachas, Sol corria descalça até a praia perto de casa e ficava sentada nas pedras, ouvindo.
Ela ouvia as ondas. Ouvia os pássaros. Ouvia o vento passando entre as pedras.
Mas naquela tarde, ela ouviu algo diferente.
Plim.
Sol piscou. Olhou para os lados. Não havia ninguém.
Plim. Plim.
O som vinha de baixo. Das pedras molhadas, escorregadias de musgo verde. Sol se abaixou devagar e encontrou, presa entre duas pedras, uma conchinha rosa do tamanho da sua mão. Ela a pegou com cuidado e colocou perto do ouvido.
E então ouviu uma voz.
— Você finalmente chegou! Estávamos esperando.
Sol quase deixou a concha cair.
— Quem fala? — ela sussurrou.
— Sou a Mestra Espumita — disse a voz, suave como espuma mesmo. — E você foi escolhida para passar uma noite na nossa escola. Mas só se quiser, claro.
Sol sentiu o coração bater forte. Do jeito bom, sabe? Aquele jeito que diz vai.
— Eu quero — ela respondeu.
A concha brilhou três vezes. E então o mar à frente de Sol começou a fazer algo incrível: abriu um caminho.
Não era um caminho seco. Era um túnel de água azul que ficava parado no lugar, como se o oceano tivesse resolvido segurar o fôlego só para ela passar. As paredes do túnel eram transparentes, e Sol conseguia ver peixinhos laranja, estrelas do mar devagar e plantas que dançavam sem pressa.
Ela respirou fundo e entrou.
A cada passo, a água cantava baixinho. A areia embaixo dos seus pés era macia como farinha. E o cheiro, ah, o cheiro era de sal misturado com algo adocicado, exatamente como algodão-doce numa festa.
Quando Sol chegou ao fim do túnel, parou de quase sem acreditar.
A escola era ainda mais bonita do perto. As conchas do telhado tintilavam com o movimento da água: tin tin tin. O jardim em volta tinha flores que Sol nunca tinha visto, roxas e verdes e de um amarelo que parecia luz. E na porta, esperando com um sorriso largo e olhos cor do mar mais fundo, estava a Mestra Espumita.
Ela era uma sereia pequena, mais baixa do que Sol imaginava, com cauda rosa-chiclete salpicada de brilhos prateados. Os cabelos dela eram brancos como espuma de onda e ficavam boiando ao redor do rosto, levíssimos. Na testa, usava uma tiara feita de conchinhas minúsculas.
— Bem-vinda, Sol — disse a Mestra, estendendo as duas mãos. — Aqui você vai aprender a coisa mais importante que existe sobre o oceano.
— O quê? — Sol perguntou, curiosa.
A Mestra Espumita sorriu com um lado só da boca, do jeito de quem guarda um segredo gostoso.
— Que cuidar do mar começa ouvindo.
Dentro da escola, havia outras sereias, e Sol não esperava que fossem assim. Eram fofinhas. Tinham bochechas redondas e risos fáceis. Uma tinha cauda azul-bebê e usava óculos de concha. Outra era bem pequenininha e carregava um caderno de algas debaixo do braço. Outra ainda estava pendurada de cabeça para baixo num coral, tentando ler assim, e ninguém parecia achar isso estranho.
— Estas são minhas alunas — disse a Mestra Espumita. — E esta noite, Sol, você vai estudar com elas.
A primeira aula foi a Aula de Escuta.
Todas sentaram em círculo no chão de areia fina. A Mestra Espumita colocou no centro um pote de vidro cheio de conchinhas de todos os tamanhos.
— Cada concha carrega um som — ela explicou. — Sons que o mar guarda. Às vezes é o som de uma baleia cantando longe. Às vezes é o som de um cardume virando de lado. Às vezes é um som de alerta.
— Alerta de quê? — perguntou Sol.
— De que algo está errado — disse a Mestra, com voz mais séria por um momento. — Quando o oceano está triste, as conchinhas ficam quietas. E quando estão quietas demais, é hora de ouvir com ainda mais atenção.
Sol olhou para o pote. Uma conchinha rosa, igualzinha à que ela havia encontrado na praia, brilhou de leve.
Plim.
O som era tão pequeno que quase não existia. Mas Sol ouviu. E sentiu algo apertar no peito, não de tristeza, mas de responsabilidade. Como quando a gente percebe que algo precisa de cuidado.
A Mestra Espumita olhou para ela com atenção.
— Você ouviu, não foi?
Sol assentiu.
— Muito bem. Você tem o dom da escuta. — A Mestra fez uma pausa. — Mas escutar não é suficiente. Você precisa entender o que o plim está dizendo.
E foi então que aconteceu algo que nenhuma das alunas esperava.
O pote de conchinhas começou a tremer.
As conchas se agitaram, tilintando todas ao mesmo tempo: tin tin tin tin tin. A sereia de óculos se levantou de um salto. A pequenininha apertou o caderno. A que estava de cabeça para baixo no coral caiu no chão com um baque macio.
— Mestra! — chamou a sereia de óculos. — O coral do lado norte está emitindo sinal!
A Mestra Espumita ficou séria. Mas não assustada. Era a seriedade de quem sabe o que fazer.
— Vamos todas — ela disse.
E olhou para Sol.
— Você vem?
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