Ilustração da Parte 1 da história Estela e o Cavalo-Sombra: A Menina que Domou um Eclipse

Estela e o Cavalo-Sombra: A Menina que Domou um Eclipse — Parte 1

Havia um lugar entre o fim da noite e o começo do amanhecer onde o céu era feito de duas metades.

Um lado brilhava com estrelas vivas, que piscavam como lanternas de festa. O outro lado era escuro, denso, pesado como cobertor molhado. E bem no meio, onde as duas metades se tocavam, havia uma linha fina, dourada e trêmula, como se o próprio céu estivesse segurando a respiração.

Estela conhecia esse lugar melhor do que qualquer pessoa.

Ela tinha nove anos, cabelos pretos cortados reto na altura do queixo, e os olhos cor de âmbar que brilhavam mesmo no escuro. Toda noite, quando os outros dormiam, Estela ficava na janela do seu quarto observando o horizonte. Ela não tinha medo da escuridão. Na verdade, a escuridão parecia ter um certo respeito por ela.

Mas naquela noite, algo estava diferente.

As estrelas piscavam com urgência, como se estivessem mandando uma mensagem em código. O vento cheirava a cinza fria e mel queimado. E no horizonte, bem no ponto onde o céu costumava ser mais bonito, havia uma sombra redonda, enorme, que crescia devagar.

Um eclipse.

Mas não o tipo comum, que dura minutos e some.

Este estava engolindo os sonhos.

Estela percebeu quando ouviu o silêncio. Não o silêncio normal da madrugada. Era um silêncio diferente, o tipo que só aparece quando as crianças param de sonhar. Os pássaros noturnos não cantavam. As cigarras calaram. Até o vento parou de soprar pela fresta da janela.

Ela desceu da cama com cuidado, pés descalços no chão frio de madeira. Toc, toc, toc. Atravessou o corredor, desceu a escada, abriu a porta dos fundos e saiu para o jardim.

Foi então que ela viu o Cavalo-Sombra.

Ele estava parado entre as roseiras, tão quieto que por um segundo Estela pensou que era uma estátua. Mas então ele virou a cabeça e olhou para ela com olhos que brilhavam como brasa apagada, cor de laranja escuro, quase vermelho.

Era enorme. Maior do que qualquer cavalo que ela já tivera visto em livro ou em sonho. A pelagem dele não era preta. Era feita de sombra de verdade, aquela sombra que tem textura, que se move sozinha quando a luz muda. Nas crinas, pequenas faíscas prateadas apareciam e sumiam, como estrelas nascendo e morrendo em câmera lenta.

— Você demorou — ele disse.

A voz era grave, como trovão longe, mas gentil. Cavalo-Sombra não movia os lábios do jeito que cavalos normais movem. As palavras simplesmente chegavam, como se viessem de dentro do peito de Estela.

— Eu não sabia que você ia aparecer — ela respondeu, sem tremer nem um pouco.

— Eu apareço quando é necessário — ele disse. — E esta noite é necessário. O eclipse está selando os sonhos das crianças. Cada criança que dorme esta noite acorda sem ter sonhado nada. Sem cor. Sem história. Sem o lugar que só existe quando os olhos estão fechados.

Estela olhou para o céu. A sombra redonda havia crescido. Ela cobria agora quase metade das estrelas.

— Quanto tempo temos? — ela perguntou.

— Até o último sino da madrugada tocar — ele respondeu. — Depois disso, o eclipse fecha. E não abre mais.

Estela não hesitou nem um segundo.

Ela deu dois passos à frente, colocou a mão na lateral do pescoço do Cavalo-Sombra e sentiu o calor surpreendente da pelagem de sombra, como areia aquecida pelo sol da tarde. Ele abaixou levemente o corpo, como uma reverência, e ela subiu.

Nunca havia montado um cavalo antes. Mas seu corpo sabia o que fazer, como se aquele momento tivesse sido ensaiado em algum sonho que ela não lembrava.

— Para onde vamos? — ela perguntou.

— Para o centro do eclipse — disse o Cavalo-Sombra. — Para o coração da sombra. Lá vive o Guardião do Escuro. Você precisará convencê-lo a devolver a luz aos sonhos.

— E se ele não quiser?

O Cavalo-Sombra fez um som que poderia ser uma risada, suave e rouca.

— Então você vai ter que encontrar outro jeito. Você é Estela. Sempre encontra.

E com isso, ele deu um salto que fez as roseiras dobrarem de vento, e eles partiram pelo céu partido ao meio.

O voo era diferente de tudo. O ar cheirava a prata e a chuva que ainda não caiu. Abaixo deles, o mundo dormia, quieto, as janelas apagadas, os telhados brilhando de orvalho. E acima, o eclipse se espalhava como uma mancha de tinta em papel molhado.

Conforme eles se aproximavam, Estela começou a sentir o peso da sombra. Não era frio, exatamente. Era mais como silêncio com pressão, como mergulhar fundo numa piscina e sentir a água apertar os ouvidos.

As estrelas ao redor piscavam com desespero. Algumas haviam sumido completamente.

— Elas estão apagando — Estela murmurou.

— São os sonhos das crianças — disse o Cavalo-Sombra em voz baixa. — Cada estrela que apaga é um sonho que não vai acontecer esta noite.

Estela apertou as crinas dele com as mãos. As faíscas prateadas aqueceram entre seus dedos.

Eles atravessaram a linha dourada que dividia o céu ao meio, e tudo mudou.

Do lado de dentro do eclipse, o ar era cor de índigo escuro, quase roxo. Havia formas flutuando ao redor, formas que pareciam pedaços de sonho interrompido: um barco à vela sem mar, uma escada que levava ao nada, uma porta sem parede, uma música sem som.

E bem no centro, onde a sombra era mais densa, havia uma figura.

Alta. Imóvel. Enrolada em algo que parecia uma capa feita de noite sem estrelas.

O Guardião do Escuro.

Ele virou o rosto para Estela, e ela pôde ver que onde deveriam estar os olhos havia apenas dois círculos brancos, sem pupila, sem brilho, como luas cheias pequenas e vazias.

— Uma menina — ele disse, com voz que soava como páginas antigas sendo viradas. — Uma menina veio até o coração do meu eclipse.

— Vim falar com você — disse Estela, com a voz firme.

— As crianças não falam comigo — disse ele. — As crianças fogem de mim.

— Eu não fujo de sombras — ela respondeu.

O Guardião inclinou a cabeça. Por um segundo, algo na expressão vazia dele pareceu mudar.

— Então fale — disse ele.

Estela respirou fundo. Cheirou a prata, a chuva, e um pouco de mel queimado.

Ela abriu a boca para começar.

Mas o sino da madrugada soou uma vez, e a sombra ao redor deles estreitou.

Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…

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