O som vinha de dentro da sexta rua como um canto muito fino, quase um chiado, mas com melodia.
Zazá inclinou a cabeça. Era… música?
Sim. Era música elétrica. Mas diferente da que a cidade tocava durante o festival. Essa música era suave, lenta, como uma canção de ninar feita de faíscas minúsculas.
Ela deu um passo cauteloso na quinta rua, a Rua do Coração Elétrico, e sentiu o pulsado subir pelas solas das botas: bum-bum, bum-bum. A gelatina tinha cor de vermelho-cereja e brilhava como brasa. As faíscas aqui eram grandes, do tamanho de maçanetas, e subiam preguiçosas antes de estouro com um som de bexiga: pop.
Zazá esperou cada faísca subir. Esperou o momento entre um bum e outro bum. E atravessou em oito passos rápidos, certeiros, como se estivesse pulando amarelinha num chão de luz.
Quando chegou à sexta rua, entendeu o som.
Havia uma criança sentada bem no meio da Rua Cantante — era esse o nome, escrito numa plaquinha gelatinosa e cintilante. A criança tinha uns sete anos, cabelos completamente azuis por causa da eletricidade estática, e estava sentada com as pernas cruzadas no chão, tocando um instrumento que parecia uma mistura de flauta com antena de rádio.
A gelatina ao redor dela estava mais fria. Muito mais fria. Quase azul-clara, quase calma.
— Oi — Zazá disse.
— Oi — a criança respondeu sem parar de tocar. — Eu sabia que alguém ia vir.
— Sabia?
— A música fria atrai os corajosos — a criança disse com simplicidade. — Meu nome é Pip. E você é Zazá. Vi seu nome no mapa da cidade quando ele piscou vermelho.
Zazá olhou ao redor. A gelatina da Rua Cantante estava de fato mais fria. Mais estável. Pip estava resfriando a rua com a música.
— Você consegue fazer isso na cidade inteira? — Zazá perguntou, os olhos arregalando.
— Sozinha, não — Pip respondeu. — Mas se o Resfriador Principal amplificar o som…
As duas se entreolharam.
— A sétima rua — Zazá disse.
— A sétima rua — Pip confirmou, levantando.
ElAS foram juntas.
A sétima rua, a Rua do Fim do Mundo — nome dramático demais para uma rua de gelatina, mas assim estava escrito — era a mais próxima do Núcleo. Ela brilhava em branco puro, quase cegante, e a eletricidade não faíscava: ela zunia. Um zum contínuo, como mil abelhas dentro de uma jarra.
Zum-zum-zum-zum.
A gelatina aqui estava no limite. Quase líquida nas beiradas. Zazá sentiu o calor mesmo através das botas.
— Precisamos correr — Pip disse.
E elas correram.
Os pés nas botas amarelas de Zazá batiam: blub-blub-blub-blub. A flauta-antena de Pip soltava notas rápidas que criavam bolhinhas de ar frio à frente delas, abrindo caminho. O zum da rua ficou mais alto, mais alto, e então, num instante, elas saíram do outro lado.
O Núcleo Gelatinoso.
Era uma sala enorme, toda de cristal cor de menta, com um teto que parecia o interior de uma gota d´água congelada. No centro, o Resfriador Principal: uma máquina do tamanho de uma árvore, com tubos translúcidos, válvulas em espiral e, bem no topo, uma entrada circular que parecia feita para receber exatamente o formato da flauta-antena de Pip.
Zazá correu para o painel de controle. Seus dedos encontraram o botão vermelho de Emergência.
Mas havia um problema.
O botão pedia um código. Quatro números. E o painel dizia: CÓDIGO DO PREFEITO.
— Não sei o código — Zazá disse entre os dentes.
Foi quando ouviram passos. Passos gelatinosos, pesados, borbulhantes.
O Prefeito Gelatinoso entrou no Núcleo ofegante, a gravata de limão toda torta, as bochechas borbulhando de tanto correr.
— Eu… ouvi tudo — ele disse, recuperando o fôlego. — E eu mandei parar a dança. A cidade inteira está em silêncio agora. Fui eu que anunciei.
Zazá abriu um sorriso enorme.
— O código, Prefeito.
Ele se aproximou do painel. Digitou: 3-0-4-2. O ano em que Gelópolis foi fundada.
O Resfriador Principal acordou com um som que era ao mesmo tempo um suspiro e um sino: hmmmmm-tinnn.
Pip encaixou a flauta-antena na entrada circular do topo. A música suave, elétrica e fria que ela tocava foi absorvida pela máquina, amplificada mil vezes, e saiu pelos tubos translúcidos em ondas de frescor azul-claro que percorreram cada rua da cidade.
Gelópolis inteira estremeceu uma vez.
E então ficou quieta.
Não quieta de triste. Quieta de aliviada.
A gelatina foi esfriando devagar, devagar. As ruas pararam de faiscar com desespero e voltaram a brilhar com aquele verde-limão e azul-relâmpago suave, gentil, bonito. O cheiro de framboesa com trovão voltou, mais fresco, mais leve.
Blub. Blub. Blub.
O som mais calmo do mundo.
Zazá saiu do Núcleo com Pip e o Prefeito Gelatinoso. Do lado de fora, a cidade estava parada, os moradores olhando ao redor com expressão de quem acabou de acordar de um sonho muito animado.
— A cidade está salva — o Prefeito anunciou, a voz borbulhando de emoção. — Graças a Zazá e a Pip.
Alguém começou a bater palmas. Depois outro. Depois mais um. Até que Gelópolis inteira aplaudiu, e o som das palmas na gelatina fazia: blub-blub-blub-blub-blub, como uma música de festa muito mais gentil que qualquer dança.
O Prefeito olhou para Zazá com os olhos saltados marejados de… bom, de gelatina, porque era o que ele tinha.
— Você vai ser sempre bem-vinda em Gelópolis, Zazá.
Ela sorriu, abriu o caderninho laranja e anotou: a cidade que dançava demais foi salva por uma flauta, um código e muita coragem.
Depois fechou o caderninho, olhou para o céu de Gelópolis — que, àquela hora, ficava cor de cereja com listras douradas — e sentiu aquela sensação boa de quando tudo fica bem.
Não a sensação de ter sido heroína.
A sensação de ter chegado lá.
Lá longe, pelos prédios de gelatina que tremiam de mansinho, uma última faísca azul subiu devagar pelo ar da cidade.
E foi se apagando, apagando, apagando…
Até virar estrela.

