No ano 3042, bem depois de todos os carros aprenderem a voar e as estrelas ganharem nomes de sobremesa, existia uma cidade diferente de qualquer outra no universo.
Sua nome era Gelópolis.
E Gelópolis era feita inteiramente de gelatina elétrica.
Isso mesmo. As ruas brilhavam numa cor entre o verde-limão e o azul-relâmpago, e quando alguém pisava nelas, elas faziam um som perfeito: blub-blub. Os prédios tremiam levemente, como pudins gigantes com janelas. As pontes oscilavam de um lado pro outro feito balanço. E o cheiro… ah, o cheiro de Gelópolis era uma mistura de framboesa com trovão, que é exatamente tão estranho e tão gostoso quanto parece.
Vivendo nessa cidade toda elétrica e tremulante, havia uma criança chamada Zazá.
Zazá tinha cabelos cor de cereja seca, botas amarelas com solado de borracha grossa — essencial em cidades de gelatina elétrica, todo mundo sabia — e uma mochila cor de laranja que ela chamava de Faísca. Dentro da mochila: um mapa holográfico da cidade, três balas de gengibre, uma lanterna de bolso e um caderninho onde ela anotava tudo o que descobria sobre Gelópolis.
Zazá era corajosa. Não do tipo que não sente medo — ela sentia sim, aquele frio na barriga quando as ruas faíscavam mais que o normal. Mas ela era corajosa do tipo que vai mesmo assim.
E naquela manhã, ela tinha um problema sério para resolver.
Tudo começou quando o Prefeito Gelatinoso fez um anúncio pela cidade.
O Prefeito Gelatinoso — que se chamava assim porque ele próprio era feito de gelatina, uma gelatina roxa e borbulhante com olhos saltados e uma gravata cor de limão — apareceu em todos os painéis da cidade às sete da manhã com uma expressão que balançava de um lado pro outro.
— Cidadãos e cidadãs de Gelópolis! — ele disse, com a voz que soava como um garfo cutucando uma travessa. — Hoje é o Festival do Bloop Elétrico! Dancem, dancem, dancem o dia todo!
E Gelópolis começou a dançar.
Os prédios sacudiram. As pontes quicaram. As ruas blub-blubaram mais rápido que nunca. As pessoas pulavam, rodavam, sapateavam na gelatina, e cada passo gerava uma pequena descarga elétrica azul que subia pelo ar como confete de luz.
Era lindo. Era animado. Era exatamente o tipo de coisa que Zazá normalmente adoraria.
Mas Zazá estava olhando para o seu mapa holográfico com uma expressão séria.
Algo estava errado.
O mapa mostrava a temperatura da gelatina em toda a cidade. Números em vermelho piscavam nos cantos. A gelatina estava aquecendo. Cada dança, cada pulo, cada descarga elétrica gerava calor. E gelatina quente demais não fica elétrica.
Gelatina quente demais derrete.
— Se a cidade continuar dançando assim — Zazá murmurou para si mesma, passando o dedo pelo mapa — Gelópolis vai virar uma poça gigante em menos de três horas.
Ela precisava chegar ao Núcleo Gelatinoso. Era lá, bem no centro da cidade, que ficava o Resfriador Principal, uma máquina enorme feita de cristal e menta que mantinha a temperatura da gelatina estável. Se Zazá conseguisse ativar o modo Emergência do Resfriador, a cidade se salvaria.
O problema: o caminho até o Núcleo passava pelas Sete Ruas Blub-Blub.
As Sete Ruas Blub-Blub eram as ruas mais elétrica da cidade. Em dias normais, crianças com botas de borracha conseguiam atravessá-las tranquilamente. Mas com a cidade toda dançando, a gelatina faíscava sem parar. Faíscas azuis. Faíscas verdes. Faíscas cor-de-rosa que cheiravam a morango queimado.
Zazá fechou o mapa, ajustou a mochila Faísca nos ombros e respirou fundo.
— Tudo bem — ela disse. — Vou atravessar as sete ruas.
A primeira rua tinha o nome de Rua Tremulina, e ela tremeu tanto quando Zazá pisou nela que pareceu um gelinho sendo espremido. Blub-blub-blub! As faíscas subiam pelos lados das botas amarelas, mas não passavam pela sola grossa. Zazá caminhou devagar, braços abertos para equilibrar, como se estivesse numa ponte de corda.
A segunda rua, a Rua Borbulhenta, tinha bolhas de gelatina subindo do chão como um suco de uva com gás enorme. Zazá teve que desviar de cada bolha antes que estourassem, porque quando estouravam, soltavam um jato de eletricidade verde direto pra cima. Poc. Poc. Poc. Ela desviou de doze bolhas. Contou todas no caderninho.
A terceira rua foi a mais difícil até agora: a Rua do Ondulado. Ela ondulava feito mar, fazendo o chão subir e descer em vagas de gelatina azul. Zazá surfou por ela, literalmente, usando as botas como se fossem uma prancha, os braços bem abertos e um sorriso meio assustado, meio animado no rosto.
Quando ela chegou à quarta rua, parou.
Na entrada da Rua do Silêncio Elétrico, havia uma figura enorme bloqueando a passagem.
O Prefeito Gelatinoso em pessoa, tremendo inteiro de animação, com a gravata cor de limão enfeitada de luzes de festa.
— Zazá! — ele disse, borbulhando. — Por que você não está dançando? Hoje é dia de festa!
— Prefeito — Zazá disse com calma, mas com firmeza. — A cidade está derretendo. Preciso chegar ao Núcleo.
O Prefeito piscou os olhos saltados. Uma, duas, três vezes.
— Derretendo? — ele repetiu. — Mas… mas o Festival é a tradição mais importante de Gelópolis!
— E Gelópolis não vai existir se a gente não agir agora — Zazá respondeu, mostrando o mapa holográfico. Os números em vermelho piscavam feito alarme.
O Prefeito Gelatinoso olhou para o mapa. Olhou para Zazá. Olhou para a rua que ondulava atrás dela. Então fez algo que ninguém esperava: começou a tremer ainda mais, mas dessa vez não de animação.
Era de susto.
— Eu… eu não sabia — ele murmurou. — O que precisamos fazer?
Zazá já estava dando o primeiro passo na quarta rua, mas virou a cabeça e disse:
— Eu preciso chegar ao Resfriador. E você precisa parar a dança por pelo menos dez minutos.
O Prefeito abriu a boca enorme e borbulhante, e uma expressão atravessou o rosto gelatinoso dele que Zazá nunca tinha visto num prefeito antes.
Era uma expressão de alguém que acabou de entender que precisa fazer a coisa certa, mesmo que seja difícil.
Mas antes que ele conseguisse falar, um barulho imenso veio da quinta rua.
CRACK-BLUB-BLUB-BLUB!
A Rua do Coração Elétrico, bem ali na frente, tinha começado a pulsar. Como um coração de verdade. E cada pulsação soltava uma onda de eletricidade que percorria toda a gelatina ao redor.
Zazá sentiu o chão vibrar sob as botas. O mapa piscou vermelho mais forte. Faltavam duas horas e quarenta minutos.
Ela olhou para as três ruas que ainda faltavam. Olhou para o Prefeito. Olhou para a cidade dançando ao redor, linda e em perigo ao mesmo tempo.
E então ela ouviu um som vindo da sexta rua. Um som que não estava no mapa.
Um som que ninguém em Gelópolis tinha ouvido antes.
Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…
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