— Senhoras luas do Conselho,
ouçam bem o que vou dizer.
Nem todo desejo que sai da boca
é o desejo que precisa ser.
Quando eu tinha cinco anos,
pedi um amigo de verdade.
Mas o que eu precisava mesmo
era de companhia e lealdade.
Faísca trouxe uma cachorrinha
que late, lambe e não me larga.
Não era o que eu tinha pedido,
mas era o que a minha alma abarca.
O menino que pediu coragem
e recebeu um besouro azul:
pois bem, eu conheço esse menino,
ele tinha medo do azul do sul.
Quando o besouro pousou em sua mão,
elle encarou o medo de frente.
A coragem veio por dentro,
não de fora, não de repente.
E a vovó que pediu descanso
e recebeu um ventriloquo?
Ela estava sozinha há anos,
vivendo num silêncio oblíquo.
O ventriloquo a fez rir,
fez barulho, fez alvoroço.
E ela dormiu mais gostoso
depois de muito, aos poucos, aos poucos.
Faísca não embaralha pedidos.
Faísca lê o que está por baixo:
aquele desejo mais verdadeiro
que mora escondido e medroso.
As luas ficaram quietas.
Um silêncio de asas pousou.
O cometa velho abaixou a cabeça.
A praça inteira respirou.
Faísca, ainda presa pelos fios,
começou a brilhar bem devagar.
Primeiro dourado, depois laranja,
depois vermelho de amanhecer.
A primeira lua falou mais baixo:
— Mas como ela sabe, afinal,
qual é o desejo verdadeiro
se o que dizemos é parcial?
Iara sorriu com os olhos:
— Porque ela viaja de noite,
quando as pessoas estão quietas
e o coração fica solto, sem açoite.
À meia-noite, quando alguém
olha pro céu e faz seu pedido,
não é só a boca que fala,
é o peito inteiro, despedido.
Faísca lê o peito, não a boca.
Lê o sonho antes da palavra.
Por isso o que ela entrega
pode parecer que descalabra.
Mas quem recebeu seu presente
e parou pra olhar de verdade,
viu que a resposta era certa,
viu que era exata a bondade.
A segunda lua se levantou,
não mais com cara de processo:
— Mas então Faísca é sábia,
não falha, tem discernimento e acesso?
— Tem sim — disse Iara firme.
— E é por isso que vim aqui:
para que o Conselho soubesse
o que eu desde pequena descobri.
O Grande Conselho se consultou
num sussurro de luz e de vento.
Depois a lua maior falou,
com solenidade e com lento:
— Ouvimos a menina da terra.
Ouvimos com atenção e cuidado.
E o Conselho reconhece, agora,
que Faísca foi mal julgada.
Os fios de luz se soltaram
num estalo de faísca e brilho.
Faísca se ergueu pelo céu
como foguete de novembro filho.
A cauda dourada voltou,
longa, viva e resplandecente.
Ela riscou o céu inteiro
num arco quente e presente.
Depois veio até Iara devagar,
flutuo bem pertinho de seu rosto,
e brilhou de um jeito especial,
um calor de abraço, um gosto.
Não tinha como falar,
estrela não tem voz nem língua,
mas Iara entendeu tudo
naquela luz minguante e distinga.
Era um obrigado de verdade.
Era o tipo de gratidão
que não precisa de palavras,
que mora direto no coração.
Iara colocou a mão no peito,
sentiu o brilho entrar por dentro,
um quentinho que ficou
como brasa de janeiro lento.
— Obrigada, Faísca — ela disse.
— Por ter lido o meu pedido certo.
Por ter trazido a Lua pra mim
quando eu pedia um amigo incerto.
Faísca brilhou mais um pouco,
girouuma vez só, bem caprichada,
e sumiu lá no fundo do céu
como quem tem muito trabalho pela madrugada.
Iara desceu a escada de luar
devagar, com cuidado e com calma.
O céu estava mais bonito agora,
cheio de riscos, cheio de alma.
Quando chegou na sua janela,
a cachorrinha Lua a esperava,
enrolada no cobertor velho,
com a orelha que sempre levantava.
Iara se deitou ao lado dela,
sentiu o cheiro de terra e capim,
e pensou em todos os presentes
que recebeu desde o princípio ao fim.
A mãe que cantava à noite.
O pai que ensinava a olhar pra cima.
Os desejos que vieram tortos
e eram certos na sua estima.
E lá fora, no céu do sertão,
uma luz riscou de ponta a ponta.
Faísca seguia o seu trabalho:
lendo corações, sendo pronta.
Iara fechou os olhos devagar.
Sorriu, respirou, se apagou.
E dormiu com a gratidão
de quem sabe o quanto foi amado.
E assim termina essa história
de céu, de estrela e de sertão,
onde até os pedidos trocados
são cheios de cuidado e de afeição.
Durma bem, menina valente,
que o céu lá fora está de olho em ti.
Alguma Faísca já leu teu coração
e preparou algo bonito pra ti.

