O chão sob os joelhos de Flora piscou uma segunda vez, e então ela viu: uma pequena alça de bronze, quase escondida entre as raízes e a grama úmida.
Era do tamanho de uma argola de cortina.
Flora segurou com os dois dedos e puxou.
Um quadrado de terra se abriu como uma porta, revelando degraus tão estreitos que ela precisou descer de lado, o casaco verde roçando as paredes de raiz e pedra.
E quando chegou ao último degrau, Flora não acreditou no que viu.
Ela estava dentro da xícara.
O céu lá dentro era diferente, como se alguém tivesse pintado uma tarde perpétua ali, com luz dourada e algumas nuvens lentas que não iam a lugar nenhum, só passeavam.
A aldeia era pequena e perfeita.
Casas de telhado azul-marinho. Uma torre com um sino que balançava sozinho de vez em quando, tin tin, tin tin. Uma praça com uma fonte onde a água subia em espirais antes de cair. Árvores carregadas de frutos que Flora nunca havia visto, redondos como bolas de cristal e cor de âmbar.
E pessoas.
Pequenas, não maiores do que a palma de uma mão, mas com rostos nítidos, roupas bordadas e modos muito educados.
Um senhor de chapéu vermelho se aproximou com passo miúdo e sério.
— Seja bem-vinda à aldeia de Filomeno — disse ele, com uma voz que soava como papel sendo dobrado. — Faz muito tempo que não recebemos uma visitante.
— Quanto tempo? — perguntou Flora, sentando no chão para ficar na altura dele.
— Desde que a Vovó Ventania esteve aqui pela última vez — respondeu o senhor. — Ela disse que um dia mandaria alguém de confiança.
Flora sentiu o coração apertar de um jeito gostoso.
O senhor de chapéu vermelho chamava-se Eusébio, e ele apresentou Flora à aldeia inteira com cerimônia e entusiasmo.
Havia uma padeira que assava pão em forno de pedra e cortava fatias com uma espada minúscula. Havia um cartógrafo que desenhava mapas de lugares que ainda não existiam. Havia uma criança chamada Pip que tinha o nariz virado para cima e os olhos cheios de perguntas.
— Você conhece a Vovó Ventania de verdade? — Pip perguntou, agarrando o dedo de Flora com as duas mãos.
— Ela é minha avó — disse Flora.
Pip soltou um ah tão redondo que pareceu flutuar no ar por um segundo.
A padeira trouxe pão ainda quente e um chá cor de mel que cheirava a canela e chuva. Flora comeu sentada no chão da praça, com Pip do seu lado e Eusébio na frente, explicando a história da aldeia.
Filomeno havia sido criada pela Vovó Ventania muitos anos atrás, bordada fio a fio durante uma noite de tempestade grande. Ela havia costurado os raios com tanta delicadeza que eles viraram caminhos. Havia bordado as nuvens com tanta paciência que elas viraram céu. E havia bordado a xícara com tanto carinho que ela havia se tornado real, com chão de terra e tudo.
— Por que dentro de uma xícara? — quis saber Flora.
Eusébio sorriu com os olhos antes de sorrir com a boca.
— Porque sua avó disse que todo lugar seguro precisa ter bordas. E que não há bordo mais gentil do que o de uma xícara.
Flora ficou até que a luz dourada lá dentro começou a ficar mais morna, do jeito que a tarde fica quando está se despedindo.
Ela se levantou, sacudiu as migalhas do casaco verde e olhou para Eusébio, para Pip, para a padeira, para o cartógrafo, para todos que haviam se reunido na praça para se despedir.
Lembrou do bilhete da vovó.
Não se esqueça de dizer obrigada quando chegar.
— Obrigada — disse Flora, e a palavra saiu de um lugar fundo do peito, do tipo de lugar onde ficam as coisas que realmente importam. — Obrigada por existirem. E obrigada por cuidarem do que a minha vovó criou.
Pip acenou com os dois braços até Flora sumir pelos degraus.
Do lado de fora, a floresta estava mais quieta. As folhas amarelas caíam devagar, como se também soubessem que era hora de descansar.
Flora dobrou o mapa com cuidado, guardou no bolso do casaco verde e começou o caminho de volta.
Quando chegou ao topo da colina, a casa da Vovó Ventania estava acesa, com cheiro de pão de gengibre e a poltrona com a marca do assento ocupada de novo.
A vovó estava bordando, como sempre, com fios dourados sobre tecido cor de céu.
Ela ergueu os olhos e sorriu do jeito que só ela sabia sorrir, com os cantos dos olhos, com as bochechas, com as mãos que pararam um instante sobre o bordado.
— Encontrou? — perguntou ela.
— Encontrei — disse Flora, e foi se aninhando no colo grande e morno da avó.
Lá fora, o vento fez mais uma reverência e foi embora.
E Flora, com o cheiro de gengibre no cabelo e o mapa dobrado no bolso, fechou os olhos devagarzinho.
Muito grata.
E muito, muito em paz.
