Ilustração da Parte 1 da história O Mapa da Vovó Ventania

O Mapa da Vovó Ventania — Parte 1

No reino de Alvenhar, onde as chaminés soltavam fumaça cor de lavanda e os gatos dormiam sobre telhados de ardósia azul, havia uma casa diferente de todas as outras.

Ela ficava no alto de uma colina redonda como um pão de mel, e as janelas piscavam como olhos curiosos quando o vento passava.

Era a casa da Vovó Ventania.

Ninguém sabia ao certo quantos anos ela tinha. Alguns diziam que ela havia chegado na noite de uma tempestade enorme, montada num redemunho. Outros diziam que ela simplesmente sempre esteve ali, como a própria colina.

O que todo mundo sabia era que a Vovó Ventania bordava o tempo.

Não histórias, não flores, não pássaros como as outras vovós do reino. Ela bordava raios. Nuvens com expressão de sono. Ventos com nome próprio. E às vezes, quando achava que ninguém estava olhando, ela bordava lugares.

Flora tinha nove anos, cabelos embaraçados que não combinavam com nenhum penteado e um par de botas que já haviam visto rios, buracos de coelho e pelo menos uma floresta encantada.

Ela era neta da Vovó Ventania, e isso, todo mundo concordava, explicava muita coisa.

Naquela manhã de outono, com o cheiro de pão de gengibre descendo a colina como um abraço, Flora encontrou algo sobre a mesa de costura da avó.

Era um pedaço de tecido dobrado quatro vezes, do tamanho de uma mão aberta.

Flora desdobrou com cuidado.

O tecido era da cor do céu antes de uma chuva, entre o cinza e o roxo, e sobre ele havia linhas bordadas com fio dourado. Havia caminhos. Havia curvas de rio. Havia uma floresta com árvores tão miúdas que pareciam cílios. E no centro, bem no centro do bordado, havia uma forma que fez Flora piscar duas vezes.

Uma xícara.

Gigante. Com uma aldeia dentro.

Flora virou o tecido de um lado para o outro. Os fios de raio brilhavam de um jeito que não era luz de vela, nem luz de janela. Brilhavam por conta própria, como se ainda guardassem um pouco de tempestade lá dentro.

— Vovó! — chamou ela.

Mas a casa estava quieta do jeito que fica quando alguém saiu há pouco. A chaleira ainda estava morna. A poltrona, ainda com a marca do assento.

Sobre a almofada da poltrona, Flora encontrou um bilhete.

A letra era grande, inclinada e cheirosa de ervas:

Flora das minhas ventanias, se você está segurando este mapa, é porque ele quis ser encontrado por você. Siga os raios. Não os de cima, os bordados. Eles sabem o caminho. A aldeia dentro da xícara está esperando por uma visita há muito tempo. Leve o casaco verde. E não se esqueça de dizer obrigada quando chegar.

Com todo o vento do meu coração,
Vovó Ventania.

Flora dobrou o bilhete, colocou no bolso, pegou o casaco verde do gancho perto da porta e saiu.

Lá fora, o vento fez uma pequena reverência.

O mapa estava aberto na palma da sua mão, e os fios de raio brilhavam mansamente, como lanternas pequenas indicando o primeiro passo.

Flora seguiu.

O caminho começou pela trilha de pedras cinzas que descia a colina, passou pelo moinho que girava mesmo sem vento, atravessou uma ponte de madeira sobre o rio Milfio, onde as trutas cantarolavam bajulando quem passava.

— Boa manhã! — disse uma truta cor de prata.

— Bom dia! — respondeu Flora sem parar, porque os raios do mapa já estavam piscando mais rápido.

Do outro lado do rio havia uma floresta que Flora nunca havia entrado. As árvores eram altas como torres e tinham casca cor de canela. As folhas, de um amarelo tão intenso que parecia que o sol havia parado ali para descansar.

Dentro da floresta, o silêncio era macio.

Flora andou, andou, andou.

Os raios bordados guiavam: brilhe à esquerda, brilhe à direita, brilhe aqui, Flora, aqui.

Até que ela parou.

No meio de uma clareira, havia algo que não deveria existir num lugar como aquele.

Uma xícara.

Tão alta quanto três cavalos empilhados. Branca como primeira neve. Com uma borda dourada e uma alça tão elegante que parecia esculpida por um joalheiro. E dentro dela, Flora podia escutar, baixinho, sons de uma aldeia.

Risos. Sino de torre. Cheiro de pão fresco.

Mas a xícara não tinha porta. Não tinha escada. Não tinha nenhuma entrada visível.

Flora deu a volta inteira. Passou a mão na porcelana fria. Olhou para cima, onde a borda ficava muito alta para alcançar.

Então ela abriu o mapa e olhou com atenção.

E viu algo que não havia notado antes: um fio dourado em espiral, bem embaixo da xícara bordada, como se estivesse indicando algo sob o chão.

Flora se ajoelhou na terra úmida e começou a procurar.

Foi quando o chão, gentilmente, piscou.

Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…

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