Lara olhava para Sussurro com os olhos brilhando de esperança.
Sussurro olhava para Lara com os olhos azuis piscando devagar.
Nino segurou a respiração do outro lado da janela.
Foi o silêncio mais longo da história da Rua das Nuvens Pequenas.
E então Sussurro disse, com uma voz mais baixa do que nunca:
— Não sei.
Lara franziu o nariz.
— Não sabe mesmo?
— Não sei — repetiu Sussurro. E a anteninha ficou quietinha, sem tremer nem um milímetro.
Lara suspirou, um pouco decepcionada. Mas logo sorriu e foi brincar com a bola de luz no jardim.
Nino saiu pela porta dos fundos e chegou até Sussurro.
O robô virou a cabecinha.
— Guardei — disse ele, simplesmente.
Nino sentiu aquele sorriso lento de novo, o que chegava devagar como o sol da manhã.
— Guardou — confirmou ele.
— Doeu um pouco — disse Sussurro. — Ficar calado quando se sabe algo é estranho.
— Eu sei. Mas sabe o que vai acontecer amanhã?
— O quê?
— Você vai ver o rosto da Lara quando ela abrir o presente. E esse rosto vai valer mais do que qualquer coisa que você poderia ter falado hoje.
A anteninha tremeu de um jeito diferente. Mais suave. Mais fundo.
Na sexta-feira, toda a vizinhança se reuniu no jardim de teto da Lara para o aniversário.
Havia balões cor de lavanda, limonada com hortelã e um bolo com sete velas douradas.
Nino e Sussurro ficaram num cantinho, do jeito que Nino gostava.
Quando chegou a hora dos presentes, a mãe de Lara trouxe a caixa com o laço vermelho.
Lara rasgou o papel devagarinho, como quem saboreia cada segundo.
E quando viu o gato de pelúcia laranja com o nome bordado na orelha, ela gritou:
— Biscoito!
E abraçou o bicho tão forte que a pelúcia quase desapareceu dentro do abraço.
Sussurro ficou olhando.
A luz dos olhos dele ficou mais brilhante do que Nino jamais tinha visto. Uma cor nova, entre azul e dourado, como o céu quando o sol está se despedindo.
— É isso — disse o robô, com a voz mais baixa de todas. — É isso que você quis dizer.
— É — disse Nino.
— Guardar o segredo foi como… plantar alguma coisa.
Nino olhou para o amigo pequeno e metálico e pensou que talvez ele fosse o melhor aluno que alguém poderia ter. Não porque aprendia rápido. Mas porque aprendia de verdade.
Naquela noite, de volta para casa, enquanto as bicicletas voavam baixinho lá fora e a cidade do futuro piscava suas luzes gentis, Nino preparou a cama e Sussurro ficou na mesinha do lado, com a anteninha inclinada para perto.
— Nino?
— Hm?
— Posso te contar um segredo?
Nino se virou, curioso.
— Pode.
Sussurro aproximou a cabecinha do ouvido de Nino e disse, bem baixinho, com aquela voz de nome já explicado:
— Acho que você é o melhor professor que um robô poderia ter. Mas isso é segredo.
Nino riu. Um riso macio, de barriga cheia e coração quente.
— Prometo guardar — ele disse.
E fechou os olhos.
Lá fora, a cidade respirava devagar. Os jardins do teto balançavam com o vento morno. E Sussurro ficou de guarda na mesinha, com os olhos apagados em dourado suave, guardando em silêncio todos os segredos bons do mundo.
Até que o sono chegasse, macio como pelúcia, para cobrir tudo com seu manto quieto.
Zzzzz…

