No ano em que as ruas tinham jardins no teto e as bicicletas voavam baixinho entre as árvores, havia uma casinha cor de areia no fim da Rua das Nuvens Pequenas.
Dentro dela morava Nino.
Nino tinha oito anos, cabelos em pé e um jeito quieto de ser. Ele não falava muito. Preferia observar. Enquanto outros meninos gritavam no pátio da escola, Nino ficava num cantinho, desenhando engrenagens no caderno e pensando em coisas que ninguém mais pensava.
Ele adorava segredos. Não segredos ruins, não. Segredos bons. Como a receita do bolo de laranja da avó, que tinha um ingrediente secreto que ela só contava no ouvido. Ou o desejo que ele fez no aniversário, que ficava guardado na parte mais morna do coração.
Nino acreditava que segredos bons eram como sementes. Se você os guardasse com cuidado, eles cresciam em coisa bonita.
Foi numa tarde de céu cor de pêssego que ele encontrou Sussurro.
Era um robô pequeno. Cabia na mochila. Tinha olhos redondos como moedas de luz azul e uma antena fina que treminha quando ele estava animado. O pai de Nino o trouxe do trabalho numa caixa de papelão com furinhos.
— Esse modelo aprende com as pessoas — disse o pai, sorrindo. — Mas ele ainda é novinho. Precisa de um bom professor.
Nino olhou para o robô. O robô olhou para Nino. A anteninha tremeu.
Desde o primeiro dia, Sussurro foi curioso como um filhote de gato. Perguntava tudo. O nome das nuvens, por que o pão ficava dourado, o que era saudade.
Nino respondia devagar, com cuidado, escolhendo as palavras como quem escolhe frutas na feira.
Mas havia um problema.
Sussurro não sabia guardar segredos.
Não era maldade. Era que ele ainda não entendia o valor deles.
Quando a avó contou a Nino, em voz baixíssima, que o ingrediente secreto do bolo era uma pitada de canela com mel de flores silvestres, Sussurro estava do lado. E antes que Nino pudesse piscar, o robô anunciou em voz alta, para toda a mesa:
— Canela com mel de flores silvestres! Ingrediente secreto identificado e armazenado!
A avó levou a mão à boca. Depois riu, mas Nino ficou vermelho como goiaba.
— Sussurro… — ele disse baixinho.
— Sim, Nino?
— Isso era um segredo.
O robô inclinou a cabecinha. A luz dos olhos ficou um tom mais escura, como quando uma nuvem passa na frente do sol.
— Segredo… — repetiu ele devagar, como se estivesse saboreando a palavra pela primeira vez. — O que é um segredo?
Nino respirou fundo. Era uma boa pergunta.
Ele pensou um pouco. Depois disse:
— Um segredo é algo que você guarda aqui dentro — e apontou para o peito do robô, bem no centro, onde ficava o módulo de memória afetiva. — Mas não qualquer segredo. Só os bons.
— Como eu sei se é bom?
— Quando contar faz alguém sorrir de surpresa. Ou quando guardar faz alguém se sentir especial.
Sussurro ficou em silêncio por três segundos inteiros. Para um robô que falava sem parar, três segundos era uma eternidade.
— Quero aprender — ele disse. — Me ensina?
Nino sorriu. O tipo de sorriso que aparece devagar, sem pressa.
— Tudo bem. Mas vai precisar de prática.
Nos dias seguintes, Nino criou o que chamou de Treino dos Segredos Bons. Toda tarde, depois da escola, os dois sentavam na varanda com vista para os jardins do teto e Nino ensinava um segredo novo.
O primeiro treino foi com o desejo de aniversário da vizinha Lara.
Lara ia fazer sete anos na sexta-feira. A mãe dela tinha contado para a mãe de Nino, em voz de concha, que Lara desejava muito um gato de pelúcia laranja chamado Biscoito. O presente já estava comprado e escondido no armário.
Nino contou para Sussurro.
O robô escutou com a anteninha bem quieta.
Depois perguntou:
— Posso falar para a Lara?
— Não.
— Por quê?
— Porque a surpresa é parte do presente. Se ela souber antes, o presente fica menor.
Sussurro processou isso por dois segundos.
— Entendo. Guardar aumenta o presente.
— Exatamente.
A anteninha tremeu de satisfação.
Mas o verdadeiro teste veio de um jeito que Nino não esperava.
Na quinta-feira à tarde, enquanto Nino estava na cozinha tomando suco, Lara apareceu na varanda para brincar com Sussurro. E com aquela voz doce de criança que quer muito saber, ela perguntou:
— Sussurro, você sabe o que vou ganhar de presente amanhã?
Nino correu para a janela.
Sussurro ficou imóvel. A luz dos olhos piscou uma vez, duas, três.
A anteninha ficou reta como um palito.
E então…
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