Na única folha do envelope lilás, estava escrito:
Você se lembra da sua própria pipa?
Malu leu três vezes.
Depois quatro.
O coração dela bateu de um jeito esquisito, aquele bater que a gente sente quando uma memória está tentando voltar à superfície como uma bolha dentro da água.
Ela se sentou no meio-fio da calçada, a bolsa amarela no colo, os dois coques um pouco desfeitos pelo vento da tarde.
A sua pipa.
Malu passou a vida inteira soltando pipas para marcar os sonhos dos outros. Pipas cor-de-rosa, verdes, douradas, listradas. Mas havia uma pipa que ela tinha feito quando tinha cinco anos, com papel de seda roxo e uma cauda de fitas brancas. Ela tinha soltado essa pipa numa tarde de vento, num campo atrás da casa da avó, e a pipa tinha subido, subido, subido tanto que o fio tinha arrebentado.
E a pipa tinha ido embora.
Malu tinha chorado muito naquela tarde. E depois, aos poucos, tinha ido esquecendo. Ou achando que tinha esquecido.
Mas o sonho dela, o sonho que ela guardava antes de se tornar carteira de sonhos dos outros, era ter uma pipa que nunca fosse embora. Uma pipa que voltasse sempre para a sua mão.
Ela respirou fundo. O ar cheirava a terra depois da chuva e a flor de laranjeira.
— Tá bom — ela disse em voz alta, como se estivesse respondendo à carta. — Eu entendi.
Malu colocou a folha lilás com cuidado dentro da bolsa e se levantou.
Ela foi andando pela rua das amendoeiras, dobrou na viela do gato laranja, atravessou a praça do coreto onde o ipê balançava as folhas como mãos acenando. E chegou até a loja do seu Araújo, que vendia linha, retalhos e papéis coloridos há quarenta anos.
— Seu Araújo — disse ela, encostando no balcão. — O senhor tem papel de seda roxo?
O velho sorriu debaixo do bigode.
— Tenho roxo, lilás, violeta e até um que parece cor de uva madura.
— Me dá o roxo — disse Malu. — E fitas brancas, por favor.
Naquela tarde, Malu fez uma pipa.
Não era grande, não era chique, não tinha nada de especial para quem olhasse de fora. Mas para ela, cada dobra no papel era uma coisa que ela lembrava. A tarde no campo. A avó trazendo suco de caju. O vento que cheirava a capim. A pipa subindo, subindo, subindo.
E o fio arrebentando.
Mas desta vez ela usou a linha mais resistente da loja do seu Araújo. E enrolou três vezes. E deu quatro nós.
Quando terminou, foi até o campo atrás da casa da avó. O sol já estava descendo, tingindo o céu de laranja e lilás, como se o próprio céu soubesse o que estava acontecendo.
Malu correu.
A pipa subiu.
Devagar, oscilando de um lado pro outro, como uma criança aprendendo a andar. Então pegou o vento certo e subiu de verdade. Subiu tanto que ficou pequenininha lá em cima, uma manchinha roxa no céu alaranjado.
E o fio ficou firme na mão dela.
Malu ficou ali parada, segurando a linha, sentindo o vento puxar de leve, como se a pipa fosse viva e quisesse dançar. E ela deixou. Deixou a pipa dançar, rodopiar, mergulhar de lado e subir de novo.
Quando a noite começou a chegar com seus primeiros pontinhos de estrela, Malu enrolou o fio com calma e trouxe a pipa de volta para a mão.
Ela estava inteira.
Malu abraçou a pipa de papel roxo como se fosse um amigo que voltou de uma viagem muito longa.
Na volta para casa, ela olhou para o céu e viu as pipas que tinha soltado durante o dia ainda pairando ao longe, cada uma sobre um telhado, uma árvore, uma janela iluminada.
E pensou que entregar sonhos era uma coisa linda.
Mas lembrar dos próprios sonhos era ainda mais lindo.
Naquela noite, Malu dormiu com a pipa roxinha do lado da cama, a bolsa amarela pendurada na cadeira e o coração cheio daquele calor gostoso que só aparece quando a gente está exatamente onde deveria estar.
Lá fora, o vento balançou as árvores bem devagar, como se estivesse cantando uma canção de ninar para ela.
E Malu fechou os olhos e sonhou.

