Ilustração da Parte 1 da história Pip e a Ponte Lá-Lá

Pip e a Ponte Lá-Lá — Parte 1

No Vale das Pedras Redondas, onde o rio cantarolava o dia inteiro e as flores tinham cheiro de mel e canela, vivia um menininho chamado Pip.

Pip tinha cabelos enrolados, nariz pequenininho e olhos que brilhavam quando alguma coisa parecia misteriosa.

E era quase sempre.

Do outro lado do rio havia uma floresta cheia de árvores azuis e pássaros cor de laranja. Pip queria muito chegar lá. Mas entre ele e a floresta havia um problema: a ponte sumia.

Não era que a ponte caía. Não era que a ponte quebrava. Ela simplesmente… não estava lá.

As pessoas do vale balançavam a cabeça quando Pip perguntava.

— Já tentei atravessar, mas não encontrei nada — dizia a Dona Mafalda, a padeira de bigode de farinha.

— Eu também não — dizia o velho Turu, que sabia de quase tudo.

Mas Pip não desistia. Ele foi até a beira do rio e ficou olhando para a água.

A água fazia um som: plim, plim, plim.

As folhas faziam um som: frushhh, frushhh.

O vento fazia um som: uuuuuu.

E então Pip percebeu algo estranho.

Bem no meio do rio, quando o vento soprava mais forte, parecia que alguma coisa tremeluzia. Como um arco-íris que quase aparece. Como uma bolha de sabão prestes a nascer.

— Uma ponte! — Pip sussurrou.

Mas quando ele olhou de novo, não havia nada.

Ele correu até a casa do velho Turu e bateu à porta: toc, toc, toc.

— Turu! Acho que vi a ponte!

O velho abriu a porta devagarzinho e coçou a barba.

— Hmm. Dizem que essa ponte é especial, Pip. Ela não aparece para qualquer um. E também não aparece de qualquer jeito.

— Como ela aparece, então?

Turu sorriu de um lado só, como quem guarda um segredo gostoso.

— Dizem que a ponte só surge quando se canta. Mas não é qualquer canção. Tem que ser cantada por muitas vozes juntas, cada uma do seu próprio jeito.

Pip piscou os olhos.

— Muitas vozes?

— Sim. E cada uma diferente da outra. Uma grave, uma fina, uma desafinada, uma tímida. Cada jeito conta. A ponte escuta tudo.

Pip saiu correndo pela rua de pedrinhas.

Ele foi até a Dona Mafalda.

— A senhora canta?

— Ô, menino! Canto, mas muito mal! — ela gargalhou.

— Perfeito! — disse Pip. — Venha comigo.

Ele foi até os três irmãos Boti, que moravam na casa amarela.

— Vocês cantam?

— Juntos ficamos todos desafinados! — disseram eles, rindo.

— Melhor ainda! — disse Pip.

Foi até a pequena Lilu, que mal falava, mas adora fazer sons com a boca: pom, pom, ti-ri-ri.

— Lilu, você vem?

Ela assentiu com a cabeça, feliz.

Pip reuniu todos na beira do rio. O sol estava descendo devagar, pintando o céu de rosa e dourado.

— Agora — disse Pip, bem sério — vamos cantar. Cada um do seu jeito. Pode ser qualquer coisa. A ponte vai escutar.

E eles começaram.

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