No Vale das Pedras Redondas, onde o rio cantarolava o dia inteiro e as flores tinham cheiro de mel e canela, vivia um menininho chamado Pip.
Pip tinha cabelos enrolados, nariz pequenininho e olhos que brilhavam quando alguma coisa parecia misteriosa.
E era quase sempre.
Do outro lado do rio havia uma floresta cheia de árvores azuis e pássaros cor de laranja. Pip queria muito chegar lá. Mas entre ele e a floresta havia um problema: a ponte sumia.
Não era que a ponte caía. Não era que a ponte quebrava. Ela simplesmente… não estava lá.
As pessoas do vale balançavam a cabeça quando Pip perguntava.
— Já tentei atravessar, mas não encontrei nada — dizia a Dona Mafalda, a padeira de bigode de farinha.
— Eu também não — dizia o velho Turu, que sabia de quase tudo.
Mas Pip não desistia. Ele foi até a beira do rio e ficou olhando para a água.
A água fazia um som: plim, plim, plim.
As folhas faziam um som: frushhh, frushhh.
O vento fazia um som: uuuuuu.
E então Pip percebeu algo estranho.
Bem no meio do rio, quando o vento soprava mais forte, parecia que alguma coisa tremeluzia. Como um arco-íris que quase aparece. Como uma bolha de sabão prestes a nascer.
— Uma ponte! — Pip sussurrou.
Mas quando ele olhou de novo, não havia nada.
Ele correu até a casa do velho Turu e bateu à porta: toc, toc, toc.
— Turu! Acho que vi a ponte!
O velho abriu a porta devagarzinho e coçou a barba.
— Hmm. Dizem que essa ponte é especial, Pip. Ela não aparece para qualquer um. E também não aparece de qualquer jeito.
— Como ela aparece, então?
Turu sorriu de um lado só, como quem guarda um segredo gostoso.
— Dizem que a ponte só surge quando se canta. Mas não é qualquer canção. Tem que ser cantada por muitas vozes juntas, cada uma do seu próprio jeito.
Pip piscou os olhos.
— Muitas vozes?
— Sim. E cada uma diferente da outra. Uma grave, uma fina, uma desafinada, uma tímida. Cada jeito conta. A ponte escuta tudo.
Pip saiu correndo pela rua de pedrinhas.
Ele foi até a Dona Mafalda.
— A senhora canta?
— Ô, menino! Canto, mas muito mal! — ela gargalhou.
— Perfeito! — disse Pip. — Venha comigo.
Ele foi até os três irmãos Boti, que moravam na casa amarela.
— Vocês cantam?
— Juntos ficamos todos desafinados! — disseram eles, rindo.
— Melhor ainda! — disse Pip.
Foi até a pequena Lilu, que mal falava, mas adora fazer sons com a boca: pom, pom, ti-ri-ri.
— Lilu, você vem?
Ela assentiu com a cabeça, feliz.
Pip reuniu todos na beira do rio. O sol estava descendo devagar, pintando o céu de rosa e dourado.
— Agora — disse Pip, bem sério — vamos cantar. Cada um do seu jeito. Pode ser qualquer coisa. A ponte vai escutar.
E eles começaram.
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