Toda manhã, bem antes do sol terminar de acordar, Malu já estava de pé.
Ela calçava seus tênis cor de hortelã, penteava os cabelos em dois coques tortos e jogava uma bolsa enorme nas costas. A bolsa era de lona amarela desbotada, cheia de bolsinhos, e dentro dela havia algo muito especial: envelopes azuis.
Não eram cartas comuns.
Eram cartas de sonhos atrasados.
Malu se chamava Malu Carteira de Pipas porque, quando entregava uma carta, ela soltava uma pipa pequenininha no ar para marcar o lugar. Pipas cor-de-rosa, verdes, douradas, listradas. Havia sempre uma pipa voando por onde ela passava.
O correio dos sonhos atrasados existia há muito tempo, mas quase ninguém sabia. Os sonhos que as pessoas esqueciam, que ficavam encalhados no fundo da memória, viravam cartas. E essas cartas iam parar em lugares curiosos: em telhados cobertos de musgo, dentro do buraco de árvores antigas, nos bolsos de casacos que ninguém usava mais.
O trabalho de Malu era encontrar essas cartas e entregar para quem tinha esquecido de sonhar.
Naquela manhã de terça-feira, a bolsa estava mais pesada do que de costume.
— Nossa, hoje tem muita coisa aqui dentro — ela sussurrou, balançando os ombros para ajeitar o peso.
O primeiro endereço era a Rua das Amendoeiras, número sete, telhado do lado direito.
Malu conhecia cada telhado da cidade como se fossem velhos amigos. Ela subia com cuidado, devagar, segurando nas telhas com as pontas dos dedos. Lá em cima, o vento cheirava a orvalho e a terra molhada. As andorinhas ainda dormiam em fileiras nas fiações.
Entre duas telhas quebradas, havia um envelope.
Ele era azul, um pouco úmido, com uma letra miúda na frente: Para o senhor que sonhava em aprender a tocar violão.
— Achei você — disse Malu baixinho, como se falasse com o próprio envelope.
Ela desceu com o mesmo cuidado, bateu na porta do número sete e esperou.
Um senhor de cabelos brancos e olhinhos sonolentos abriu a porta.
— Bom dia — disse Malu, estendendo o envelope. — Acho que isso é seu.
O senhor olhou para a carta. Então olhou para Malu. Então olhou para a carta de novo. Seus olhos ficaram brilhantes, do jeito que ficam quando a gente lembra de algo que amava muito.
— Meu pai tinha um violão — ele disse, quase para si mesmo. — Eu queria tanto aprender…
Malu sorriu, soltou uma pipa dourada no ar e foi embora.
A manhã continuou. Ela encontrou uma carta dentro do buraco de um ipê na praça do coreto. Era para uma menina de tranças que um dia quis ser pintora e foi esquecendo esse desejo aos poucos, dia após dia. Encontrou outra carta enrolada dentro da manga de um casaco de lã pendurado numa janela, esquecido desde o inverno passado. Era para uma mulher que sonhava em plantar um jardim de lavanda.
Cada entrega era diferente.
Algumas pessoas choravam um pouquinho. Outras riam. Algumas ficavam quietas, com aquele olhar de quem está vendo algo que ficou escondido por muito tempo.
Malu não ficava para ver o fim. Ela entregava, soltava sua pipa e seguia em frente.
Mas naquela tarde, algo diferente aconteceu.
Quando ela enfiou a mão no último bolso da bolsa amarela, encontrou um envelope que ela nunca tinha visto antes. Ele era maior que os outros, mais encorpado, e tinha uma cor diferente: não era azul. Era lilás, com uma borda de estrelinhas douradas.
E na frente, escrito com uma letra que parecia feita de fumaça de vela:
Para Malu Carteira de Pipas.
Ela parou no meio da calçada. O vento balançou as pipas que ainda voavam ao longe. Um gato laranja passou perto dos seus pés e miou baixinho, como se também quisesse saber o que estava dentro daquele envelope.
Malu olhou para todos os lados. A rua estava quieta. As árvores sussurravam.
Seria uma carta de sonho? Para ela?
Mas ela nunca tinha esquecido de sonhar…
Ou tinha?
Ela abriu o envelope devagar, devagar, como se tivesse com medo de que o conteúdo fosse desaparecer se ela fizesse muito barulho.
Dentro havia uma única folha. E no centro da folha, uma única frase.
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