Sol não pensou duas vezes.
— Venho sim — ela disse.
E correu atrás da Mestra Espumita e das outras sereias pelo corredor de corais da escola, passando por janelas redondas que mostravam o oceano escuro lá fora, cheio de brilhos que piscavam como estrelas submersas.
O coral do lado norte ficava um pouco além do jardim. Era uma estrutura enorme, cor de laranja queimado, cheia de ramificações que pareciam árvores de outro mundo. Mas quando Sol chegou perto, notou que algumas partes estavam cinzas.
Não era cinza de pedra. Era cinza de tristeza.
— O que aconteceu com ele? — Sol perguntou, em voz baixa.
— Está adoecendo — disse a sereia de óculos, chamada Marola. — Quando o coral fica cinza assim, é porque a água ao redor mudou. Ficou mais quente, ou chegou algo que não deveria.
Sol se aproximou com cuidado. Perto do coral, o som era diferente. Era quase silêncio. E naquele silêncio havia algo, uma ausência, como quando a música para no meio e a gente sente falta dela antes mesmo de perceber que acabou.
E então Sol ouviu.
Plim.
Um plim pequenino. Saindo de uma conchinha que estava presa numa das ramificações cinzas do coral, tão escondida que ninguém tinha visto.
— Aqui! — Sol chamou.
A Mestra Espumita chegou ao lado dela rapidinho. Olhou para a conchinha. E sorriu.
— Você ouviu. E encontrou.
— O que ela está dizendo? — Sol perguntou.
— Que ainda há vida aqui dentro — disse a Mestra. — O coral não morreu. Está pedindo ajuda.
A sereia pequenininha, que se chamava Gota, abriu o caderno de algas com agilidade. Folheou algumas páginas e apontou para um desenho.
— Temos o extrato de alga-da-lua no depósito! Serve para isso!
— Então busca — disse a Mestra. — Depressa, Gota.
Gota saiu a nado como um peixinho atirando. Marola ficou perto do coral, tocando de leve nas partes cinzas com as pontas dos dedos e cantarolando baixinho. A sereia que tinha caído do coral, chamada Vaga, também cantou. Era uma melodia de três notas só, mas tinha qualquer coisa nela que fazia a água ao redor ficar um pouquinho mais iluminada.
Sol ficou parada, sem saber bem o que fazer. Então a Mestra se virou para ela.
— Você também pode ajudar.
— Como? Eu não sou sereia.
— Não. Mas você ouve. — A Mestra pegou a mão de Sol e a colocou perto da conchinha no coral. — Fique perto dela. Continue ouvindo. Às vezes, o que uma criatura que está sofrendo mais precisa é de alguém que preste atenção de verdade.
Sol fechou os olhos e ficou ouvindo.
Plim. Plim. Plim.
Era fraco, mas era constante. Como um coraçãozinho teimoso que se recusava a parar.
Gota voltou com um potinho azul-claro cheio de um líquido que brilhava como luar. A Mestra Espumita aplicou com muito cuidado nas partes cinzas do coral, usando um pincelzinho feito de pelo de ouriço-do-mar. E as sereias continuaram cantando, e Sol continuou ouvindo.
Devagar, muito devagar, o cinza foi cedendo.
Primeiro apareceu um fio de cor laranja. Depois outro. Como se o coral estivesse acordando de um sonho pesado e lembrando quem era. Em dez minutos, a ramificação inteira tinha voltado à cor, mais brilhante do que antes, como se agradecer tivesse feito ela crescer um pouco.
As sereias soltaram um gritinho de alegria ao mesmo tempo. Marola pulou. Gota abraçou o caderno. Vaga fez uma cambalhota na água.
Sol sorriu do fundo do coração.
A Mestra Espumita se virou para ela com aquele olhar tranquilo, cheio de afeto.
— Sabe o que você fez hoje?
— Ouvi uma conchinha — Sol disse, simples assim.
— Exatamente. — A Mestra se abaixou um pouco para ficar na altura dos olhos de Sol. — Muita gente acha que cuidar do oceano é coisa grande. É gritar, é agir, é fazer muito barulho. E às vezes é. Mas na maioria das vezes começa aqui. — Ela apontou para a orelha de Sol. — Com atenção. Com escuta. Com a vontade de notar o que é pequeno.
Sol olhou para o coral, agora cheio de cor e de vida. Peixinhos minúsculos já tinham voltado a nadar entre as ramificações, como se soubessem que era seguro de novo.
Plim, disse a conchinha, uma última vez.
Mas agora era um plim diferente. Não de pedido. De agradecimento.
Quando o túnel de água voltou a aparecer para Sol, era quase meia-noite. O oceano lá fora tinha ficado mais escuro e mais calmo, daquele azul profundo que parece veludo.
A Mestra Espumita a acompanhou até a entrada.
— Você pode voltar quando quiser — ela disse. — A escola sempre tem uma conchinha esperando por quem sabe ouvir.
Sol abraçou a Mestra. Foi um abraço forte, do tipo que aperta devagar para não acabar rápido demais. A Mestra cheirava a sal e a baunilha, de um jeito que só podia existir no fundo do mar.
— Obrigada, Mestra Espumita — Sol sussurrou.
— Obrigada você, Sol.
Quando Sol saiu pelo túnel e voltou para as pedras da praia, o mundo estava quieto. A lua estava enorme e amarelada, se olhando no espelho do mar. A areia ainda estava morna dos pés de Sol horas atrás.
Ela olhou para a conchinha rosa na sua mão.
Plim, ela disse, uma vez só.
Sol sorriu e a guardou no bolso.
Caminhou de volta para casa descalça, com os pés na areia fria, e o coração cheio daquela sensação gostosa de quem fez algo que importava, não porque era grande, mas porque foi feito com atenção.
Naquela noite, Sol dormiu ouvindo o som das ondas pela janela aberta.
E sonhou com sereias de cauda rosa-chiclete, cantando para um coral laranja que brilhava no fundo do mar.
Plim. Plim. Plim.
E o oceano, muito contente, cantou de volta.
