Ilustração da Parte 1 da história A Cachoeira de Cabeça para Baixo

A Cachoeira de Cabeça para Baixo — Parte 1

Drica era uma menina de bochechas redondas, cabelo cacheado sempre escapando do elástico e um coração tão grande que ela abraçava até as pedras do caminho quando achava que elas pareciam solitárias.

Mas Drica tinha um segredo envergonhado: ela nunca havia comido pé de moleque.

Não era por falta de oportunidade. Em toda festa junina da escola, a bandeja aparecia cheia daqueles pedaços dourados e crocantes, cheirando a rapadura e amendoim torrado. Mas Drica encolhia o nariz e dava um passo atrás.

— Pé de moleque? — ela murmurava baixinho. — Com esse nome? Deve ter chulé.

E aí ela ria sozinha, achando graça da própria lógica, e ia buscar um copo de limonada.

Na tarde de uma sexta-feira quente de julho, Drica foi com a família visitar a Fazenda do Tio Renato, lá no interior. A fazenda ficava pertinho de um riacho que, segundo os mais velhos, era famoso por uma coisa muito estranha.

— Famoso por quê? — Drica perguntou, já com os olhos brilhando.

— Você vai ver — disse o Tio Renato, sorrindo com aquele sorriso misterioso de quem sabe um segredo gostoso.

Eles caminharam por uma trilha de terra alaranjada, passando por pés de milho e galinhas que cacarejavam sem motivo aparente. O ar cheirava a mato molhado e terra quente. Borboletas amarelas rodopiavam em volta de Drica como se ela fosse uma flor.

E então, no meio de um silêncio dourado, ouviram.

Pláááásh.

Mas diferente. Um splash de cabeça para baixo, como se a água subisse em vez de cair.

Drica abriu a boca.

Lá na frente, escondida entre duas pedras cobertas de musgo verde-escuro, havia uma pequena cachoeira. E a água dela… subia. Subia devagar, brilhando ao sol como fios de cristal, até sumir lá em cima numa nuvem de névoa branca.

— Isso é impossível! — Drica exclamou, correndo para mais perto.

— É o Rio Encantado — disse o Tio Renato, colocando a mão no ombro dela. — Só aparece em dias de muito sol de julho. E só quem tem um coração curioso consegue ver.

Drica ficou parada, com os pés na beira d’água fria e os olhos pregados naquela maravilha impossível. A água subia em bolhas leves, fazendo um som de tin tin tin suave, como sino pequeno.

Foi então que ela viu: do outro lado do riacho, em cima de uma pedra plana e lisinha, havia uma bandeja.

Uma bandeja cheia de pedaços dourados e crocantes.

Pé de moleque.

Drica estreitou os olhos. Como aquilo tinha parado ali? Quem tinha deixado?

Ela olhou para os lados. Ninguém. Só o vento, as borboletas e o rio que insistia em cair para cima.

Para chegar até a pedra, ela precisaria atravessar o riacho. E o riacho encantado borbulhava com aquela água fria e brilhante que subia, subia, subia…

Drica respirou fundo. Enfiou um pé na água.

Tin tin tin.

E então aconteceu algo que ela não esperava.

Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…

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