Ilustração da Parte 1 da história Iara e o Julgamento das Estrelas Cadentes

Iara e o Julgamento das Estrelas Cadentes — Parte 1

Ouça bem, menina curiosa,
que gosta de céu e de andar,
vou contar uma história brava,
bonita de se escutar.

No alto do Céu dos Desejos,
onde tudo é luz e calor,
vivia a estrela chamada Faísca,
riscando o céu com fervor.

Era uma estrela cadente,
de cauda longa e dourada,
que viajava entre os pedidos
como mensageira encantada.

Mas havia um problema, sim,
um problema de verdade:
os desejos chegavam tortos,
cheios de confusão e vaidade.

Um menino pediu coragem
e ganhou um besouro azul.
Uma vovó pediu descanso
e apareceu um ventriloquo.

E assim a fama foi crescendo:
Faísca bagunça os pedidos!
Faísca embaralha as palavras!
Faísca perde os sonhos preferidos!

O Grande Conselho do Firmamento,
feito de luas e cometas sérios,
marcou um julgamento solene
para resolver esses mistérios.

— Faísca será julgada!
Vai responder pelo que fez!
Se culpada for provada,
não riscará o céu outra vez!

A notícia desceu do céu
como um raio de vento e clarão,
e chegou aos ouvidos de Iara,
menina do sertão.

Iara era pequena e forte,
de tranças negras e pés no chão,
que dormia olhando estrelas
na janela do seu sertão.

Ela conhecia Faísca,
não de perto, mas de cor:
quando tinha cinco anos
pediu um amigo com fervor.

No dia seguinte, apareceu
uma cachorrinha chamada Lua,
que latia de manhã cedo
e dançava na sua rua.

Não era bem o que pediu,
mas foi melhor do que esperava.
E por isso Iara sabia:
Faísca nunca errava.

Assim que soube do julgamento,
a menina tomou uma decisão:
— Vou defender a Faísca!
Ela não merece essa acusação!

Mas como chegar ao céu?
Como subir até lá em cima?
Iara olhou para a janela
e viu uma luz altíssima.

Era uma escada de luar,
tecida de névoa e de brilho,
que aparecia só pra quem
tem coragem como estilo.

Iara botou o pé no primeiro degrau,
sentiu o frescor da madrugada,
subiu, subiu, subiu mais um pouco,
com a lua como companheira aliada.

Quanto mais subia, mais via:
nuvens dormindo em camadas,
ventos pendurados no nada,
estrelinha recém-chegadas.

E então chegou ao portão:
duas luas cruzadas de prata,
guardadas por um cometa velho
que tinha voz de barata.

— Quem és tu, menina do chão,
que sobe até aqui sem convite?
Volta pra terra, vai dormir,
esse lugar não te pertence, limite!

Mas Iara não recuou,
botou as mãos no quadril:
— Sou Iara, menina do sertão,
e vim defender quem é gentil!

Venho falar no julgamento
da Faísca, estrela injustiçada.
Tenho prova do que digo,
trouxe a verdade bem guardada!

O cometa velho piscou,
recuou um pouco surpreso,
e abriu o portão de prata
com um lento e solene acesso.

Dentro do Céu dos Desejos,
Iara viu o que nunca imaginou:
uma grande praça de constelações,
omde cada estrela brilhou.

No centro, presa por fios de luz,
estava Faísca, pequena e calada,
com a cauda dourada apagada
e a chama quase nada.

— Faísca! — gritou Iara baixinho.
A estrela ergueu os olhos devagar.
Um brilho tímido apareceu,
como brasa querendo voltar.

O Grande Conselho se levantou,
feito de luas solenes e frias:
— Começa o julgamento agora!
Faísca responderá pelas suas falhas e alquimias!

A primeira lua falou alto:
— Ela recebeu um pedido de riqueza
e entregou uma semente de girassol.
Isso é descaso! É indolência!

A segunda lua trouxe mais:
— Um pedido de fama foi feito
e ela entregou silêncio e paz.
Esse tipo de erro não se aceita!
Não podemos confiar mais!

Faísca não respondeu.
Apenas brilhou bem pouquinho.
Iara sentiu o coração apertar
como abraço de carinho.

Então deu um passo à frente
e falou com voz de trovão miúdo:
— Peço a palavra ao Conselho!
Tenho algo a dizer, não desisto de jeito nenhum!

As luas se entreolharam.
Um murmúrio percorreu o lugar.
Mas a lei do Céu dos Desejos
diz que qualquer um pode falar.

— Fala, criança da terra,
mas fala com prova e com razão.
Nesse céu não vale emoção!

Iara respirou fundo,
olhou para Faísca com afeto,
e começou a contar sua história
com cuidado e com respeito.

Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…

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