Ilustração da Parte 2 da história A Feira das Perguntas Sem Resposta

A Feira das Perguntas Sem Resposta — Parte 2

A feira sumiu no vento,
mas Bel continuou de pé,
com o papel entre os dedos
e o coração cheio de fé.

Ela correu pra praça triste,
passou pelo portão enferrujado,
sentou no banco mais velho
em silêncio respeitado.

O chão estava ressecado.
O coreto, quase caindo.
Mas Bel sentiu que algo
na praça ainda estava vivendo.

Devagarzinho ela abriu
o terceiro papel dourado.
As letras brilharam no ar
como sol em dia nublado.

A pergunta dizia assim,
como canto de passarinho:
O que aconteceria aqui
se alguém desse um carinho?

Bel ficou em silêncio
um segundo, dois, três…
E então começou a rir,
uma risada de uma vez.

— Essa pergunta não tem resposta!
Por isso ela é tão forte!
A resposta sou eu mesma,
essa é a minha sorte!

Ela tirou do caderno
aquelas páginas escritas,
as perguntas da feira toda,
bonitas e malditas.

E começou a colar
os papéis no portão velho.
Cada pergunta era uma flor
no mais singelo espelho.

Por que o belo precisa de nós?
Ficou colado na entrada.
O que faz uma praça ser voz?
Na grade enfeitada.

As pessoas iam passando
e paravam pra ler.
Uma senhora de branco
não conseguiu se conter.

— Que coisa curiosa essa!
O que faz uma praça ser voz?
Precisamos de música aqui!
Isso faz bem pra nós!

Um menino parou também,
de bicicleta e cabelo ao vento:
— Por que o belo precisa de nós?
Isso me deu pensamento!

Uma por uma as perguntas
foram atraindo o bairro.
A feira sem resposta
se tornou o maior amparo.

O jardineiro veio com pá.
A vizinha trouxe mudas de rosa.
O senhor do armazém
trouxe tinta de cor graciosa.

Tin tin! A sineta soou.
Mas dessa vez era real.
Uma criança pendurou
um vento-moinho de papel.

Plac plac! As bandeirolas
que alguém costurou depressa.
A praça foi ganhando cor,
brilho, vida e promessa.

Bel ficou ali o dia todo,
uma felicidade no peito.
Não precisou de resposta.
Apenas fez o que era certo.

Quando o sol foi se deitando,
lá no fim do horizonte,
Bel ouviu um assobio,
como água de uma fonte.

Era Zósimo de longe,
chapéu de palha na mão,
balançando devagarzinho
com sorriso e sermonão.

— Você entendeu, menina,
o segredo mais guardado:
perguntas sem resposta
não são buraco, são chamado.

— São chamado pra agir?
— perguntou Bel, brilhante.
— São chamado pra imaginar
o que pode ser adiante.

Zósimo foi embora
como veio, sem aviso.
Mas deixou no ar a brisa
cheirando a paraíso.

Bel voltou pra casa tarde,
trança desfeita, mão suja de terra,
mas com o coração tão cheio
de uma paz que não se enterra.

A avó a recebeu na porta:
— Você tá bem, meu bem?
— Tô mais do que bem, vovó.
Fiz uma pergunta que vale um trem.

E quando Bel se deitou,
naquela noite estrelada,
não precisou de nenhuma resposta
pra ter a alma sossegada.

Sabia que amanhã haveria
outras perguntas esperando.
E que ela, curiosa e corajosa,
iria respondendo, fazendo.

A praça dormiu florida.
O bairro dormiu contente.
E Bel dormiu sorrindo,
leve, tranquila e crente.

Zzzz… Que cada pergunta sua,
menina que está me ouvindo,
seja uma semente linda
de um futuro que está vindo.

Fim.

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