Ilustração da Parte 1 da história Koa e a Caravela de Ossos

Koa e a Caravela de Ossos — Parte 1

O vento chegou antes do amanhecer.

Ele passou rente ao chão do deserto, levantando uma faixa de areia dourada que brilhou como brasa por alguns segundos antes de sumir no escuro. Koa estava acordada. Sempre estava acordada nesse horário, sentada na entrada da caverna onde o clã dormia, observando o céu mudar de cor.

Tinha nove anos e alguns meses, cabelos embaraçados de poeira, e os olhos mais atentos que qualquer pessoa do clã já tinha visto. Sua avó dizia que ela havia nascido com olhos de gavião. Koa não sabia bem o que isso significava, mas gostava.

A vida no deserto era assim: muito quente de dia, muito fria à noite, e sempre, sempre com sede.

O clã de Koa vivia entre três grandes dunas que protegiam a caverna do vento mais violento. Havia vinte e duas pessoas no total, alguns mais velhos, outros ainda bebês. E todos dependiam de uma coisa só: a fonte d’água que ficava a dois dias de caminhada, num vale de pedra vermelha que os mais velhos chamavam de Garganta Funda.

Mas a Garganta Funda estava secando.

Nos últimos meses, a água vinha menos. O nível baixava. Os adultos conversavam em voz baixa quando achavam que as crianças não ouviam, mas Koa ouvia tudo.

Foi pensando nisso que ela se levantou naquela manhã e caminhou sozinha até o topo da duna maior. O sol ainda não tinha nascido de verdade, e o céu era de um roxo profundo salpicado de estrelas.

E foi aí que ela viu.

No fundo do vale entre as dunas, havia uma sombra que não deveria estar ali.

Koa franziu os olhos. Era grande. Era comprida. Tinha formas estranhas se projetando para cima, como galhos, como presas, como… mastros?

Ela desceu a duna correndo, com os pés afundando na areia macia, o coração batendo mais rápido do que as passadas.

Quanto mais se aproximava, mais impossível ficava o que via.

Era uma caravela.

Uma caravela enorme, do tipo que Koa nunca tinha visto de verdade, mas que o velho Taro descrevia nas histórias que contava: um navio com cascos altos, mastros de madeira retorcida e velas. Só que essas velas não eram de tecido. Eram feitas de peles finas e translúcidas, esticadas entre estruturas que pareciam ossos enormes, brancos como lua, curvados como costelas de algum animal gigantesco que ninguém mais via há muito tempo.

A caravela repousava sobre a areia como se tivesse pousado ali. E sob o casco, onde deveriam estar a quilha e o leme, havia runners, espécies de patins largos e curvados, também de osso, que deixavam marcas lisas na areia, como se o navio deslizasse.

Koa ficou parada diante dela por um longo momento.

A madeira do casco era escura e antiga, com marcas entalhadas que ela não conseguia ler. O mastro principal tinha quase o dobro da sua altura. E no topo, presa por um cordame de tendão trançado, uma bandeira pequena estalava no vento.

A bandeira era azul.

A cor da água.

Koa subiu.

Não foi uma decisão pensada. Foi do tipo que o corpo toma antes que a cabeça possa reclamar. Ela encontrou uma escada de corda pendurada no casco, subiu de mão em mão, e pousou no convés com um baque suave.

O navio não balançou. Era firme como pedra.

O convés era largo e cheio de detalhes curiosos: recipientes de argila presos com cordas nas laterais, pequenos compartimentos abertos onde havia pedras polidas de cores diferentes, e no centro, um círculo gravado no madeirame, com linhas se espalhando em todas as direções como os raios de um sol.

Koa se ajoelhou e passou o dedo numa das linhas.

A linha brilhou.

Foi só por um segundo, um brilho tênue como brasa, mas foi suficiente para ela pular para trás.

Depois, do nada, uma voz.

— Você veio sozinha.

Koa rodou rápido. No mastro, havia um pássaro. Grande, cinza, com penas na cabeça que lembravam uma crista. Ele a olhava com uma cabeça inclinada.

— Você fala? — ela perguntou.

— Todos falam — disse o pássaro. — Poucos escutam. Você veio sozinha.

— Vim — confirmou Koa.

— Essa caravela não navega sozinha — disse ele. — Ela precisa de três.

Koa olhou para os lados. Areia. Vento. As dunas enormes e o céu que agora começava a clarear em laranja.

— Três para quê?

— Para encontrar a fonte — disse o pássaro. — A fonte que não aparece para um. Não aparece para dois. Só aparece para três que cooperam de verdade.

Koa sentiu o coração apertar.

A fonte.

Ela pensou nos adultos sussurrando preocupados. Pensou nos bebês dormindo com sede. Pensou na Garganta Funda que estava secando.

— Onde fica essa fonte?

O pássaro abriu as asas e apontou com o bico para o horizonte, onde o deserto se estendia sem fim.

— Além das Três Pedras Negras. Além do Vale dos Ecos. Onde o vento para.

Koa respirou fundo.

Ela precisava de mais dois. E tinha uma ideia de quem chamar.

Duko era o menino mais teimoso do clã, e também o mais forte. Tinha dez anos, carregava pedras grandes como se fossem gravetos, e nunca admitia que estava com medo. Koa e ele brigavam com frequência, mas ela confiava nele.

Ran era diferente. Quieta, pequena para a idade, com dedos ágeis que consertavam qualquer coisa quebrada. Ela entendia de estruturas, de encaixes, de como as coisas funcionavam por dentro. Koa a respeitava muito.

Foi buscá-los antes que o sol subisse de vez.

Duko chegou desconfiado, com os braços cruzados.

— Um navio no deserto — ele disse, olhando para a caravela. — Isso não faz sentido.

— Muita coisa não faz sentido — disse Koa. — E mesmo assim acontece.

Ran não disse nada. Caminhou devagar ao redor do casco, passou os dedos nos runners de osso, examinou os encaixes do mastro. Depois subiu a escada de corda sem que ninguém precisasse pedir.

— Ela funciona — Ran anunciou lá de cima. — Velas prontas. Lastro equilibrado. Alguém construiu isso com muito cuidado.

O pássaro os observava do mastro.

— Três — ele disse, satisfeito. — Agora pode.

Koa subiu. Duko esperou um segundo, depois suspirou e subiu também.

Quando os três estavam no convés, o círculo gravado no centro brilhou todo de uma vez, todas as linhas ao mesmo tempo, e o navio estremeceu.

Um estremecimento suave, como respiração.

E então, devagar, a caravela de ossos começou a deslizar.

Sem vento aparente. Sem ninguém empurrando. Apenas o rangido calmo dos runners de osso sobre a areia, e o som das velas de pele se inflando como pulmões.

Koa foi até a proa e olhou para frente.

O deserto se abria enorme, dourado, cheio de segredos.

— Por onde vamos? — perguntou Duko.

— O pássaro disse: além das Três Pedras Negras, além do Vale dos Ecos, onde o vento para — respondeu Koa.

— E se não acharmos nada?

Koa não respondeu na hora. Ficou olhando o horizonte.

— A gente acha — ela disse por fim.

Mas quando as Três Pedras Negras apareceram no horizonte, enormes como montanhas, com sombras que pareciam se mover, Duko apontou para algo estranho entre elas: uma passagem estreita, cheia de pedras soltas, e no meio da passagem, algo se mexia.

Algo grande.

Algo que não era vento.

Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…

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