No tempo em que os mamutes ainda pisavam na terra com seus passos pesados como trovão, e em que as estrelas eram tão baixas que as crianças achavam que podiam tocá-las com a ponta dos dedos, havia uma tribo pequena que vivia perto de uma montanha muito especial.
A montanha tinha o topo vermelho e fumegante. Os adultos da tribo a chamavam de Gura, que na língua deles queria dizer a que respira. E ela realmente respirava. Às vezes soltava um suspiro de cinzas. Às vezes arrotava uma baforada de vapor quente que cheirava a pedra molhada e enxofre.
Ninguém se aproximava de Gura depois que o sol desaparecia.
Ninguém, é claro, exceto Ari.
Ari tinha nove anos, cabelos embaraçados cheios de folhas secas e um colar feito de pedrinhas coloridas que ele mesmo havia catado à beira do rio. Sua pedra favorita ficava bem no centro do colar: era negra, lustrosa e tinha um furo perfeito no meio, como se alguém tivesse feito de propósito. Quando o vento passava pelo furo, ela produzia um som fininho e suave, quase um assobio.
Os outros da tribo chamavam isso de sorte.
Ari chamava de música.
Ele adorava música. Batia gravetos nos troncos, soprava nas cascas de bambu, imitava o canto dos pássaros com a boca fechada. Sua avó dizia que ele havia nascido com o coração afinado.
Foi por isso que, na noite em que a montanha cantou pela primeira vez, Ari foi o único que acordou.
Era uma nota longa. Grave no começo, depois subindo, subindo, subindo, até virar um som redondo e imenso que fez a terra formigar debaixo dos pés descalços de Ari.
Óóóóóó.
O som saiu de dentro de Gura como se a montanha tivesse tomado fôlego, enchido o peito de ar quente e resolvido cantar para o céu estrelado.
Ari ficou parado na entrada da caverna onde a tribo dormia. O coração batia rápido. A pedra do colar vibrava levemente no seu peito, como se estivesse respondendo.
No dia seguinte, quando ele tentou contar para os adultos, ninguém acreditou.
— Você sonhou, Ari — disse sua mãe, mexendo o ensopado de raízes.
— Gura nunca cantou — disse o ancião Beru, sem nem levantar os olhos.
Mas na noite seguinte, o som voltou. Óóóóóó. Mais longo dessa vez. Mais triste.
E na noite depois. E na noite depois dessa.
Sempre depois que a última fogueira apagava. Sempre a mesma nota. Sempre vindo do topo de Gura.
Ari começou a observar com mais cuidado. Reparou que o canto durava exatamente enquanto a lua ficava no ponto mais alto do céu. Reparou que, logo depois, uma pequena nuvem de cinzas subia em espiral, como se a montanha estivesse suspirando de alívio. E reparou em algo que ninguém mais havia notado: no lado norte de Gura, bem abaixo da boca de fogo, havia uma fenda comprida na rocha. Escura. Profunda. Com bordas que pareciam ter sido polidas por mãos muito antigas.
Ari passou três dias só olhando para aquela fenda de longe.
No quarto dia, ele foi até lá.
A pedra do colar soltou um assobio baixinho quando ele se aproximou. Tin tin.
Ari parou. Olhou para a pedra. Olhou para a fenda.
Dentro da abertura na rocha, havia algo gravado. Linhas e pontos, feitos com uma pedra afiada por alguém que havia vivido ali muito, muito antes dele. Ari passou os dedos sobre os sulcos. Eram figuras: dois seres de mãos dadas, uma montanha com chamas no topo, e embaixo de tudo, uma série de pequenos círculos em fila, como contas de um colar.
Ou como notas de uma música.
O coração de Ari acelerou.
Ele estava prestes a tentar decifrar o resto das gravuras quando o chão tremeu suavemente. Apenas uma vez. Como um aviso.
E da fenda, muito de dentro, veio um sopro de ar morno que trouxe consigo um cheiro que Ari nunca havia sentido antes: doce, como mel queimado, e ao mesmo tempo antigo, como terra que nunca viu chuva.
Ari recuou um passo. A pedra do colar vibrou de novo. Mais forte dessa vez.
E então, vindo de algum lugar dentro da montanha, surgiu um som diferente de tudo que Ari já havia ouvido. Não era o canto noturno. Era mais como uma voz. Não de pessoa. Não de animal. Algo entre as duas coisas, grave e ressonante, que parecia sair das próprias rochas.
E essa voz disse apenas uma coisa:
— Você trouxe a Pedra Afinada.
Ari olhou para o colar. Olhou para a fenda. Sentiu os joelhos bambos e a respiração curta.
Mas não fugiu.
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