O sol bateu na almofada azul.
As fibras do tecido acenderam em roxo e dourado. As migalhas-asteroides flutuaram suavemente. E o Sofá-Galáxia estava pronto.
— Equipe, posições! — gritou Pulgueta.
Zip, Bólon e Fila se posicionaram na borda da almofada como três pequenos astronautas no início de uma grande jornada.
Rafa ficou do lado de fora, com o rosto quase encostado no sofá, os olhos bem semicerrados, torcendo com todo o coração.
O campeonato começou com um salto.
Zip saiu como um raio. Pulou por cima de um aglomerado de migalhas, desviou de um botão branco que girava como um planeta, e aterrizou perfeitamente no Setor 3. Era rápida demais.
Bólon foi mais devagar, mas firme. Cada passinho calculado. Cada pulo medido. Quando a Nuvem de Pelos surgiu, formada pelos fios soltos da almofada, ela mergulhou com calma e saiu do outro lado como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Boa, Bólon! — Rafa sussurrou, tão baixinho que só as pulgas podiam ouvir.
Fila foi a última.
Ela parou na borda do Setor 5, olhando para a escuridão à frente.
O Setor 7 estava logo ali. Rafa podia ver, bem no fundo entre o encosto e o assento, uma sombra grande. Imensa. Que se movia lentamente.
A Sombra Perdida.
Era enorme para uma pulga. Para Rafa, pareceu um pouco com aquela meia de lã roxa que ficava enrolada atrás da almofada há meses. Mas para Fila, era como uma montanha viva no meio do caminho.
A pulginha parou.
— Eu não consigo — ela disse.
Pulgueta abriu a boca para falar, mas foi Rafa quem falou primeiro.
— Fila — ele sussurrou. — Você lembra o que a Capitã disse? Ninguém sabe antes de tentar. Mas quem tenta descobre que conseguia o tempo todo.
Houve um silêncio pequeníssimo.
E então Fila deu um passo.
Depois outro.
Depois um salto.
Ela entrou na escuridão do Setor 7.
Rafa prendeu a respiração.
A Sombra Perdida se mexeu.
E então aconteceu uma coisa que ninguém esperava.
Fila não gritou. Não fugiu. Ela olhou para a sombra de pertinho e percebeu uma coisa simples e estranha:
A criatura estava dormindo.
A Sombra Perdida era uma meia de lã roxa enrolada de um jeito torto que criava uma silhueta enorme no escuro. E embaixo dela, dobradinha e um pouco amassada, estava exatamente o que procuravam.
A meia de listras amarelas de Rafa.
Fila deu três pulitinhos miúdos, passou por baixo da meia roxa com cuidado de bailarina, e encostou a patinha na meia amarela.
— Consegui! — ela sussurrou.
Do lado de fora, Rafa sentiu o coração pulsar de alegria.
Pulgueta levantou o braço, séria e orgulhosa.
— Missão cumprida. Equipe de volta ao ponto de origem.
Zip e Bólon voltaram voando, ainda cheios de energia. Fila voltou mais devagar, mas com a cabeça erguida e um sorriso pequenino que parecia um grão de areia brilhante.
Rafa enfiou a mão no sofá com muito cuidado, bem no Setor 7, e sentiu o tecido felpudo da meia favorita entre os dedos.
Ele puxou devagar.
A meia saiu inteira, um pouquinho amarrotada, mas ali.
— Incrível — ele disse.
Pulgueta pousou na borda da almofada e olhou para ele com um sorriso do tamanho de nada e do valor de tudo.
— O troféu é nosso — ela disse.
E foi assim que a Capitã Pulgueta entregou solenemente a tampa de garrafa com o alfinete para Fila, a pulga mais nova, a que havia enfrentado a Sombra Perdida sem saber o que ia encontrar, e que descobriu, no escuro do Setor 7, que a coragem não é não ter medo.
Coragem é dar o primeiro passo mesmo quando o coração está apertado.
Rafa ficou olhando para a almofada azul por um longo tempo.
Depois calçou a meia de listras amarelas.
O sofá estava quieto agora, com o sol já mais fraco e a tarde chegando mansa. As nebulosas de tecido perderam o brilho dourado e voltaram a ser só fibras de um sofá antigo.
Mas Rafa sabia que era muito mais que isso.
Ele se deitou na almofada, com a cabeça macia e os pés quentinhos.
— Boa noite, Capitã — ele sussurrou.
De algum lugar muito pequeno e muito perto, uma voz minúscula respondeu:
— Boa noite, Rafa. Descanse. Amanhã tem mais galáxia pra explorar.
E com esse pensamento brilhando suavemente atrás dos olhos, Rafa fechou os cílios, abraçou a almofada azul com carinho, e foi escorregando para dentro do sono mais gostoso da semana.
Lá dentro, ele sonhou com asteroides de migalha, pulgas de capacete dourado e meias perdidas esperando por alguém corajoso o suficiente para buscá-las.
E aquela noite, o universo inteiro coube dentro de um sofá.
