Ilustração da Parte 1 da história Rafa e a Capitã Pulgueta: O Grande Campeonato do Sofá-Galáxia

Rafa e a Capitã Pulgueta: O Grande Campeonato do Sofá-Galáxia — Parte 1

No ano 3047, o maior campeonato do universo não acontecia entre foguetes gigantes nem entre naves reluzentes.

Acontecia dentro de casa.

Especificamente, dentro do sofá da sala de Rafa.

Rafa tinha sete anos, cabelo sempre bagunçado e um talento muito específico: ele conseguia ouvir as pulgas falando.

Não todas as pulgas. Só as da almofada azul, a almofada mais velha do sofá, a que ficava sempre no cantinho perto do controle remoto.

E dentre todas as pulgas daquela almofada, havia uma que falava mais alto que todas as outras.

— Rafa! Rafa! Acorda! O campeonato é hoje! — gritou uma voz pequeníssima, do tamanho de uma semente de gergelim.

Rafa abriu os olhos. Ainda era cedo. A luz da manhã entrava pela janela em riscos dourados, e o sofá brilhava um pouco diferente naquela hora. Sempre brilhava assim quando Pulgueta estava animada.

Capitã Pulgueta era a maior aventureira que Rafa já tinha conhecido. Ela usava um capacete feito de um botão dourado, uma capa de fio de lã vermelha e tinha uma antena minúscula plantada na cabeça, sintonizada só nas frequências do futuro.

E naquele dia, a frequência dizia uma coisa muito clara:

Era hora do Grande Campeonato do Sofá-Galáxia.

Rafa sentou no sofá e esticou o pescoço para olhar de pertinho a almofada azul.

Pulgueta estava lá, com os braços cruzados e a expressão séria de quem já planejou tudo há semanas.

— Temos um problema, Rafa — ela disse.

— Qual? — ele perguntou, ainda com voz de sono.

— A meia. A meia direita do par de listras amarelas. Sumiu lá no fundo do sofá.

Rafa fez uma cara. Ele sabia exatamente qual meia era essa. A sua favorita. A que ele usava todo sábado.

— E por que é um problema pro campeonato? — ele quis saber.

Pulgueta suspirou e abriu um mapa minúsculo. Era feito de papel de bala, desenhado com um fio de tinta azul que parecia tinta de caneta esferográfica. Mas funcionava perfeitamente.

— Porque a meia está no Setor 7 — ela disse. — E o Setor 7 é o lugar mais fundo do Sofá-Galáxia. Nenhuma pulga jamais voltou de lá sem perder o capacete.

Rafa olhou para o sofá. Visto de cima, era só um sofá velho com almofadas. Mas visto de pertinho, com os olhos bem semicerrados, como Pulgueta tinha ensinado, ele era outra coisa completamente.

Era uma galáxia.

As fibras do tecido formavam nebulosas roxas e azuis. As migalhas eram asteroides flutuantes. Os botões perdidos brilhavam como estrelas amarelas. E lá no fundo, entre o encosto e o assento, onde a escuridão era mais escura que o espaço sideral, ficava o Setor 7.

O lugar onde as meias iam para nunca mais voltar.

— É por isso que precisamos do campeonato — disse Pulgueta. — A equipe que atravessar o Sofá-Galáxia, desviar dos asteroides de migalha, passar pela Nuvem de Pelos do Bichinho e chegar ao Setor 7 vai recuperar a meia. E vai ganhar o troféu.

O troféu era uma tampa de garrafa com um alfinete no fundo. Mas para as pulgas, era o maior prêmio do universo.

— E a nossa equipe? — perguntou Rafa.

Pulgueta assoviou baixinho.

Três pulgas minúsculas pularam para a frente.

A primeira se chamava Zip. Era a mais rápida de todas, com perninhas que mal se viam de tão velozes. A segunda era Bólon, uma pulga redondinha e tranquila que nunca se assustava com nada. E a terceira era Fila, a mais nova, que ainda não tinha feito nenhuma missão, mas que olhava para tudo com uma curiosidade imensa e os olhinhos bem abertos.

— Capitã — disse Zip, já aquecendo as perninhas. — Estamos prontos.

— Prontos não — disse Pulgueta. — Treinados.

Ela virou para Rafa.

— E é aí que você entra.

Rafa sorriu. Ele adorava essa parte.

Durante toda a manhã, Rafa e Pulgueta treinaram a equipe. Rafa soprava suavemente nas fibras do sofá para criar vento estelar. Ele pingava uma gotinha de suco de laranja para simular a Nuvem de Pelo. Colocava um botão brilhante no meio do caminho para representar a Estrela Bloqueadora do Setor 5.

Zip treinava velocidade. Bólon treinava equilíbrio. Fila treinava coragem, que era a parte mais difícil de todas.

— Eu não sei se consigo — Fila disse uma vez, olhando para a escuridão do Setor 7 lá no fundo.

— Ninguém sabe antes de tentar — disse Pulgueta. — Mas quem tenta descobre que conseguia o tempo todo.

Rafa repetiu baixinho aquela frase. Ela parecia boa demais para ser só de pulga.

O campeonato começaria ao meio-dia, quando o sol batesse exatamente na almofada azul e o Sofá-Galáxia recebesse luz suficiente para iluminar as nebulosas de tecido.

Mas faltava pouco para o meio-dia quando Pulgueta chamou Rafa de lado, com uma expressão diferente. Mais séria do que o normal.

— Rafa — ela disse. — Tem algo que não te contei sobre o Setor 7.

Ele se abaixou para ouvir melhor.

— Existe uma criatura lá dentro. Não sabemos o nome dela. As pulgas antigas chamavam de A Sombra Perdida. É grande. Maior que qualquer coisa no Sofá-Galáxia. E ela não gosta de visita.

Rafa sentiu um friozinho na barriga.

— E como a gente passa por ela?

Pulgueta olhou para ele com seus olhinhos brilhantes do tamanho de pontos.

— É isso que ainda não descobrimos.

O relógio na parede marcou onze e cinquenta e oito.

Dois minutos para o grande campeonato começar.

Mas o que aconteceu depois? Continue a história na Parte 2…

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