Ilustração da Parte 2 da história O Gigante Que Perdeu Seu Abraço

O Gigante Que Perdeu Seu Abraço — Parte 2

Leco tirou a caixinha de madeira da mochila.

Ela era pequena, cheirinha a cedro, com uma fechadura dourada no formato de um coraçãozinho.

Nunca tinha aberto antes. Mas desta vez, quando ele encostou o dedinho na fechadura, ela fez um barulhinho:

Tin tin.

E abriu sozinha.

Dentro da caixinha, havia algo que não dava para ver direito. Era como uma luz dourada muito suave, que pulsava devagar, como o coração de alguém dormindo.

E então, de dentro da caixinha, começaram a sair sons.

Risadas.

Pequenas, antigas, enroladas umas nas outras como novelos de lã.

Era o barulho de alguém rindo com vontade, daquele jeito que faz a barriga doer de tanto rir.

Manso ficou parado, olhando para a caixinha com os olhos arregalados.

— Eu conheço essas risadas — ele sussurrou.

— São suas? — perguntou Leco.

— São do dia em que abracei minha mãe pela última vez — disse Manso, com a voz tremendo um pouquinho. — Faz muito tempo. Eu era pequeno. Bem, pequeno pra um gigante.

As risadas foram saindo da caixinha e subindo no ar, como bolhinhas de sabão douradas. Elas rodearam Manso devagar, como se fossem um abraço feito de memória.

Manso fechou os olhos.

Os braços dele foram se abrindo, bem devagarzinho.

E então, sem que ninguém entendesse bem como, um calorzinho enorme se espalhou por toda a floresta. As flores abriram mais. Os passarinhos cantaram mais alto. O riacho voltou a correr, mais feliz do que antes.

Manso abriu os olhos. Eles brilhavam.

— Encontrei — ele disse. — O abraço estava aqui dentro o tempo todo. Precisava só que alguém me ajudasse a lembrar.

Leco sorriu com os dentes todos aparecendo.

Manso abaixou as mãos enormes com muito cuidado, e Leco subiu nelas como se fosse uma escada macia.

E então Manso abraçou o menino.

Foi um abraço quentinho, macio como cobertor, cheiroso como pão, largo como o céu.

Leco ficou quietinho lá dentro, com os olhos fechados.

Não disse nada.

Não precisava.

Depois, Manso colocou Leco de volta no chão com delicadeza, e os dois ficaram olhando as bolhinhas douradas subindo até sumirem entre as estrelas que começavam a aparecer no céu do reino de Pedra Mole.

— Obrigado, Leco — disse Manso, baixinho.

— Foi fácil — disse Leco, com um bocejo enorme. — Os abraços nunca somem de verdade. Eles só ficam guardados, esperando alguém lembrar deles.

E naquela noite, o menino de cabelos bagunçados dormiu abraçado à sua mochila, com um sorriso no canto da boca.

E o gigante Manso, lá na floresta, dormiu também, com os braços cruzados sobre o peito, guardando o abraço que tinha reencontrado.

Zzzzzz.

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